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Linguagista

Léxico: «boate»

Não boate

 

      «Barbara, a mulher em fúria, era viúva do melhor amigo dele, Sam, que fora baleado no peito – e à queima roupa – pela gerente de um motel em Los Angeles, tendo as autoridades concluído que o homicídio fora justificado, porquanto, segundo garantiu a gerente, Sam tinha entrado pelo escritório do motel dentro, enfurecido e nu, em busca de uma mulher que conhecera nessa noite numa boate e que levara para o seu quarto, onde a despiu e tentou violar» («Across the 110th Street», António Araújo, Diário de Notícias, 27.03.2021, p. 37).

      Não boate, Porto Editora, você sabe bem que boate não é somente forma do verbo «boatar». Não nos diga isso assim à queima-roupa.

 

[Texto 14 884]

Léxico: «diotelismo | diotelita»

Não surgiu na década de 90...

 

      Em monotelismo, Porto Editora, dizes que é a «doutrina do século VII, considerada herética no concílio de Constantinopla (680-681), que afirmava haver em Cristo duas naturezas (a divina e a humana) mas uma só vontade (a vontade divina)». Não está mal — mas falta acrescentar duas coisas. Neste mesmo verbete, indicar-se que se opõe ao diotelismo. Além disso, criar o verbete de diotelismo (do grego duo, dois, e thelema, vontade): a doutrina que afirma a existência de duas vontades em Cristo, a humana e a divina.

 

[Texto 14 883]

Léxico: «pequi»

Cheio de picos

 

      «Não por acaso porque Carlos Bolsonaro, o filho presidencial com a pasta da Propaganda, pedira dias antes a um juiz para intimar um youtuber que usou o “genocida” e o ministro da Justiça André Mendonça mandara a polícia investigar o sociólogo que instalou dois outdoors com uma foto do presidente e a frase “não vale um pequi roído” – uma expressão comum no estado de Tocantins para caracterizar um inútil, uma vez que, depois de roído o pequi, um fruto local, sobra apenas um caroço cheio de picos» («Quando já não há palavras», João Almeida Moreira, Diário de Notícias, 25.03.2021, p. 25).

      Sim, pequi, o fruto de uma árvore do mesmo nome de médio porte (Caryocar brasiliense), da família das Cariocaráceas, nativa do Brasil. Agora já não podemos ignorá-los, pois claro.

 

[Texto 14 882]

Léxico: «urgentista»

Agora sim

 

      «A Ordem dos Médicos está a estudar a criação da especialidade de Medicina de Urgência. O plano está praticamente fechado e poderá provocar mudanças na linha da frente dos hospitais. [...] Portugal está entre os cinco países europeus sem a especialidade de Medicina de Urgência. Existe a competência em Emergência Médica, que pode obter qualquer médico, mas não há uma formação que inclua todo o tipo de urgências» («Ordem dos Médicos estuda criação da especialidade de Medicina de Urgência», Lúcia Gonçalves, SIC Notícias, 23.03.2021, 22h36).

      Vamos ter então, agora sim, urgentistas. Tudo a seu tempo — quando falei aqui do termo, ainda era prematuro. «França vai enviar quatro profissionais de saúde, nomeadamente médica urgentista especializada em cuidados intensivos, duas enfermeiras anestesistas e uma enfermeira lusófona» («Covid-19. França vai enviar quatro profissionais de saúde para os cuidados intensivos do Hospital Garcia de Orta», Expresso, 12.02.2021, 20h13).

 

[Texto 14 881]

Definição: «indicção»

O principal fica de fora

 

      Não é a primeira vez: a principal acepção de indicção é precisamente a que falta no dicionário da Porto Editora. Diz que é «1. convocação de concílio ou assembleia eclesiástica; 2. prescrição eclesiástica; 3. espaço de quinze anos na contagem do tempo, nas bulas pontifícias». Tudo do âmbito religioso. Ora, entre os Romanos, a indicção era um período fiscal recorrente de quinze anos, muitas vezes usado também como unidade para datar acontecimentos.

 

[Texto 14 880]

Léxico: «uberização»

Um dia será

 

      Isso mesmo, volto a falar deste neologismo. Não me parece curial continuar a ignorá-lo por muito mais tempo. «A ‘uberização’ da economia há muito que se tornou visível nas nossas cidades e agora ainda mais com a pandemia, que levou a que passássemos a usar mais recorrentemente as plataformas digitais de serviços – basta ver que uma das imagens destes tempos são os aglomerados de motas de serviços como a Uber Eats ou a Glovo a levar alimentos às pessoas que estão confinadas em casa» («Mais direitos para os uber-trabalhadores, a bomba-relógio das moratórias e como vai ser o Portugal 2030», Pedro Lima, Expresso Economia, 26.03.2021).

 

[Texto 14 879]