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Linguagista

Léxico: «tecnofóssil»

Vai ser arqueológico

 

      «Que histórias vão contar os vestígios que deixamos numa Terra que dominamos? David Farrier quis investigar. Vislumbrou aquilo a que chama “fósseis futuros” nos milhões de quilómetros de estradas pavimentadas que já construímos; nas coisas de plástico que usamos no nosso quotidiano e que se intrometem e moldam a natureza; nos incontáveis objectos de consumo de que nos rodeamos (unhas postiças, carros, caricas, roupa...) e nas inovações tecnológicas que serão tecnofósseis (telemóveis, smartwatches, cartões de crédito...)» («Glória ou horror: que história vão contar os nossos fósseis?», Pedro Rios, Público, 27.03.2021, 21h53).

 

[Texto 14 890]

Léxico: «muladi | Ibn Mucana»

Continuem a esquecer Codro

 

      Parece-me escandaloso que a Infopédia não registe o nome de Ibn Mucana, o poeta, de origem muladi ou moçárabe, que viveu no século XI ali em Alcabideche (Al-Qabdaq). Ao que parece, foi o primeiro autor a referir a existência dos moinhos de vento na Europa. Em Alcabideche há um monumento, erigido em 1965, de homenagem a este poeta, desinteressante, mas, enfim, apto a resistir mais cinco séculos. «Ó tu que vives em Alcabideche, oxalá nunca te faltem, etc.» Que não registem o nome do poeta (poetastro, segundo se diz) romano Codro, que viveu no tempo de Domiciano, não é de admirar — mas deixar de fora Ibn Mucana?

 

[Texto 14 889]

Léxico: «cabeço»

Mas não destes

 

      «Choco e polvo à parte, Cláudia dedica-se, de vez em quando, à apanha do lingueirão — canivetes, como se diz por estas bandas. E, de vez em quando, porque o lingueirão tem, obrigatoriamente, de ir à depuradora para ser comercializado e isso torna o negócio menos atractivo. Mas o que é fascinante é a técnica de captura. Com a maré vazia, os pescadores dirigem-se aos cabeços (espécie de ilhas que ficam a descoberto ao longo do rio) e, quando detectam as “tocas” onde estão os lingueirões — buracos em forma de 8 —, esguicham-lhes sal fino. Os bichos, com tal carga de salinidade, têm de vir à superfície limpar a toca com urgência. É nesta altura que são apanhados com a maior das facilidades» («“É uma vida difícil, mas não temos patrões a mandar na gente”», Edgardo Pacheco, Público, 22.03.2021, p. 15). Cabeços destes tu não conheces, Porto Editora.

 

[Texto 14 888]

«Gastroculinário»?

Malcozinhado

 

      Outra novidade, esta anómala: «É tempo de Páscoa, é tempo de primavera, e é tempo de primícias. Mesmo confinados, é espiritualmente a altura em que a família alargada toca a reunir em torno da mesa farta em doçaria e em primor, animada que costuma ser pelos inefáveis cabrito e borrego. Um e outro assumem à vez o trono gastroculinário da época, consoante a região onde nos encontramos e o que não pode mesmo falhar são os doces» («Páscoa, passagem e conventualidades», Fernando Melo, Diário de Notícias, 29.03.2021, p. 30).

 

[Texto 14 887]

Léxico: «torrefadora»

Primeira vez

 

      «Embora as rupturas no fluxo de cargas tenham causado o caos no comércio global de alimentos, os desafios no mercado do café mostram que a inflação destes produtos, já em aceleração, pode ser exacerbada com a reabertura das economias. Por enquanto, as torrefadoras podem recorrer aos stocks em vez de aumentarem os preços, mas, com as reservas em queda e expectativa de uma melhor colheita no Brasil, as restrições devem persistir» («‘Pesadelo’ logístico pode acentuar défice global de café», Jornal de Negócios, 28.03.2021, 17h30). ​

      Isto para mim é absoluta novidade, nunca antes tinha visto. Só vejo torrefador no Michaelis: «Diz-se de ou profissional da área de torrefação de café.» A imprensa brasileira, porém, fala na «indústria torrefadora» e em «torrefadora», a empresa que se dedica à torrefacção de café. Agora chegou cá. Aguardemos desenvolvimentos.

 

[Texto 14 886]

Léxico: «petreu»

Pouco mudou

 

      «Havia em tempos muitos remotos na Arábia Petreia um marabuto ou santão, que era de carácter rústico, intratável e fero. Tinha por vezo ou doença abespinhar os compatriotas, afirmando que tudo ia de mal a pior, que o caide era tolo e criança, que os habitantes do aduar vizinho haviam de conquistar o oásis, que as palmeiras floriam tarde e a más horas e davam frutos deslavados, que os poços secavam, os camelos não criavam leite, e os avestruzes não punham ovos» (Bom Senso e Bom Gosto: Questão Coimbrã: textos integrais da polémica, Vol. 3, Alberto Ferreira. Lisboa: Portugália Editora, 1966, p. 211).

      Não é preciso ir à Arábia Petreia nem a séculos recuados: também entre nós — alguns já andaram aqui pelo blogue — temos gente assim, para quem tudo está sempre mal — mas incapaz de mexer uma palha para melhorar o que quer que seja. Exímios em guerreias de língua, mas fracos em trabalho produtivo, sobretudo se altruísta.

 

[Texto 14 885]