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Linguagista

Versão dos Setenta | Septuaginta

Mais respeito e memória

 

      A tradução grega do Velho Testamento feita em Alexandria por setenta e dois rabinos do Egipto é conhecida por versão dos Setenta. É assim, Porto Editora, que deves grafá-lo e não como o fazes, «versão dos setenta». Viste bem: feita por setenta e dois rabinos egípcios — não, como dizes, por setenta tradutores. O número foi arredondado. Soa melhor. Como também é conhecida por Septuaginta, esta palavra deve constar em todos os dicionários.

 

[Texto 14 896]

Erros de sempre e para sempre

Um dilema não sexual

 

      «Seis dias depois da morte, o rei Goodwill Zwelithini foi sepultado de madrugada numa cerimónia em Kwanongoma, norte da província do KwaZulu-Natal. Ou melhor foi “plantado” na terra – o termo em zulu é ukutshalwa, que numa tradução livre significa plantar – para deixar claro que este não é o fim da sua influência sob o povo que governou durante mais de cinco décadas», Susana Salvador, Diário de Notícias, 29.03.2021, p. 22).

      A influência é sob o povo porque «o cargo é altamente simbólico», não é assim, Susana Salvador? O que interessa é ir errando sempre no decurso de muitos e muitos felizes anos, sinal de que estamos vivos. (Só mais uma nota, esta mais pacífica: não basta escrever Nongoma? Se sim, porque não? Só porque sim? E atenção à pontuação.)

 

[Texto 14 895]

Definição: «pope»

Russo? Grego? Um concílio

 

      «Cada qual, consoante a sua fé, pode ao domingo ouvir missa católica ou os ofícios ortodoxos (o pope, de compridas barbas arruçadas, é uma das figuras mais características de bordo) ou simplesmente sonhar, dormir, meditar» (Jornadas na Europa, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Publicações Europa-América, 1958, p. 202).

      Para o Dicionário da Real Academia Galega, é o «sacerdote da igrexa ortodoxa». Um dicionário de catalão não diverge muito: «Nom genèric donat a un sacerdot secular de l’Església Ortodoxa.» Para a Porto Editora, é o «sacerdote ortodoxo russo». Para o Dicionário da Real Academia Espanhola, é o «sacerdote de la Iglesia ortodoxa griega». Agora tem de se convocar um concílio para discutir a questão. Entretanto, deixo a minha definição preferida, que é a do Treccani: «Nelle chiese greco-ortodosse, e soprattutto (dal 1047) in quella russa, denominazione popolare del parroco, appartenente al clero secolare.» Aprendamos.

 

[Texto 14 894]

Definição: «exarco»

Está incompleto

 

      Como talvez saibam (hum...), em 552, o eunuco Narses derrotou Tótila e libertou Roma. Narses tornou-se depois o primeiro exarco e administrou todo o reino de Itália durante mais de quinze anos. Ora, se em exarco/exarca dizes apenas, Porto Editora, que é o «delegado dos imperadores do Oriente», não me parece que o falante que consulta o dicionário vá ficar com uma ideia muito precisa. Num dicionário de catalão, encontro esta muito mais clara definição: «HIST Governador que representava els emperadors de Bizanci a Itàlia i Àfrica.» No Michaelis: «ANT Vice-rei de província na Itália ou na África sob os imperadores bizantinos.» Aprendamos.

 

[Texto 14 893]

Léxico: «édito | edicto»

Mas que invencionice

 

      «O Édito de Constantino em 313 e o reconhecimento do Cristianismo como “religião de Estado” pelo imperador Teodósio em 380 criaram condições para o crescimento rápido do número de cristãos» (Religião na Sociedade Portuguesa, Alfredo Teixeira. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2019, p. 16).

      Será mesmo assim que se escreve? Nem por acaso, na semana passada li uma excelente tradução dos anos 60 e encontrei várias ocorrências de Edicto de Constantino. E, mais uma vez, não sei se os dicionários nos podem mesmo ajudar. No dicionário da Porto Editora, a diferença fundamental parece estribar-se na forma escrita que assume num caso (édito) e não no outro (edicto). Mais, para a primeira delas, parece-me que inventaram a etimologia. Requer-se aqui atenção. Para mim, claro, racional, é o que consigna o Dicionário da Real Academia Espanhola a respeito de edicto: «1. m. Mandato, decreto publicado con autoridad del príncipe o del magistrado. 2. m. Escrito que se fija en los lugares públicos de las ciudades y poblados, y en el cual se da noticia de algo para que sea notorio a todos.» Aprendamos.

 

[Texto 14 892]

Desportos esquecidos

É curioso...

 

      «A 19 de abril podem regressar as modalidades de médio risco, onde estão andebol, andebol de praia, andebol de cadeira de rodas, basquetebol, corfebol, futebol, futsal, hóquei em campo, voleibol, aquatlon, hóquei subaquático, râguebi subaquático, hóquei em patins e hóquei em linha» («MotoGP e Fórmula 1 ainda não sabem se terão assistência, Proença acredita em público nos estádios a 19 de abril», Bruno Roseiro, Observador, 11.03.2021, 22h39).

      Ainda não percebi como é que os dicionários não registam desportos — seja qual for a língua de que os termos provenham — que se praticam por cá.

 

[Texto 14 891]