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Linguagista

Léxico: «abelissauro»

Não faltam casos destes

 

      «O ‘Llukalkan aliocranianus’, cujo nome provém da palavra da língua mapuche nativa para “aquele que mete medo” (Llukalkan) e do latim para “crânio diferente” (aliocranianus) terá vivido na mesma área e período de tempo que outro abelissauro (lagarto de dorso rígido), o ‘Viavenator exxoni’, apenas alguns milhões de anos antes do fim da era dos dinossauros» («“Aquele que mete medo”. Descoberta nova espécie de dinossauro na Argentina», Diário de Notícias, 31.03.2021, 17h26, itálico meu). A Porto Editora diz que o termo abelissauro provém «do latim científico Abelisaurus, idem». Ora obrigadinho. Deixam-me sempre a rir, estas etimologias. O nome é uma homenagem ao paleontólogo argentino que o descobriu, Roberto Abel (1919-2008). Ah, na verdade, Porto Editora, é do Cretácico Superior.

 

[Texto 14 905]

Léxico: «Hagadá | hagádico»

Não é o mais importante

 

      «A data escolhida para a assinatura do protocolo que marca o arranque do TIKVA – palavra hebraica que significa esperança e que está também associada à Sinagoga de Lisboa – não é casual. “É uma data simbólica que celebra os 200 anos da extinção do Tribunal do Santo Ofício (o instrumento da Inquisição foi estabelecido em 1536 e funcionou durante 285 anos, até 31 de março de 1821)”, concretiza a Associação Hagadá no comunicado partilhado no Facebook» («Museu Judaico apresentado hoje com doação de 2 milhões de Berda», Joana Petiz, Diário de Notícias, 31.03.2021, p. 18).

      Ora, dá-se o caso de que falar do nome da associação promotora seria muito mais interessante e útil. Estranhamente, Hagadá/Agadá (e os adjectivos hagádico/agádico) não estão em nenhum dicionário, e não faltam ocorrências em obras em língua portuguesa dos últimos dois séculos, pelo menos.

 

[Texto 14 904]

Léxico: «comano | Comanos»

Fica apontado o caminho

 

      No original, fala-se dos «Coman auxiliaries». O tradutor, infelizmente, não teve dúvidas: «os auxiliares romanos». Como é que a Porto Editora, por exemplo, acolhe os muito mais obscuros Cumanos (de Cumas, cidade da Campânia) e deixa na sombra os Comanos? Isto até se pode complicar, porque em inglês se diz que Coman é variante de Cuman: «a Turkic people who occupied parts of southern Russia and the Moldavian and Wallachian steppes during the 9th, 10th and 11th centuries and were driven out by the Tatar and Mongol invasions and some of whom passed into Hungary where they were absorbed» (no Merriam-Webster). Ainda temos de comer muito pãozinho. Temos, sobretudo, de continuar a trabalhar sem desfalecer.

 

[Texto 14 903]

Léxico: «bandoneão»

Um caso curioso

 

      «Empurrado por Ginastera, apresentou uma obra sua, a “Sinfonia de Buenos Aires em Três Andamentos”, no concurso Fabien Sevitzky, em cuja estreia houve quem se indignasse pelo facto de uma orquestra erudita incluir dois bandoneões. [...] Renitente em revelar qual era o seu instrumento, Boulanger insistiu, e lá surgiu o bandoneón na conversa» («O homem que escreveu o futuro do tango», Luciana Leiderfarb, «Revista E»/Expresso, 5.03.2021, p. 51).

      Só as separam escassas e curtas (página a três colunas) vinte linhas, mas Luciana Leiderfarb esqueceu-se. Como se esqueceram os nossos dicionaristas de acolher o aportuguesamento bandoneão. Quase todos. No Dicionário de Música Espanhol-Português da Meloteca, contudo, lá vamos encontrar bandoneão para traduzir bandoneón. Se calhar consideram que tirar o acento a bandoneón (como se vê no dicionário da Porto Editora) já é aportuguesar...

 

[Texto 14 902]

«Lei-travão», de novo

Corrigir e melhorar

 

      «Sobre a decisão de Marcelo Rebelo de Sousa de promulgar os três diplomas que reforçam os apoios sociais a famílias, empregados a recibo verde e empresas unipessoais, e que o Governo considera violarem a lei-travão (que impede o Parlamento de decidir aumentos de despesa ou cortes de receita), o constitucionalista não se quer alongar» («Apoios sociais: Jorge Miranda tem “as maiores dúvidas” sobre posição de Marcelo mas desaconselha Costa a recorrer ao TC», Ângela Silva, Expresso, 30.03.2021, 17h21).

      Isso mesmo: é que nem todos os falantes sabem que a Assembleia da República é o órgão legislativo por excelência — mas o Governo detém, ainda assim, um poder legislativo residual. Por isso, proponho que a definição do dicionário da Porto Editora passe a ter a seguinte redacção: «designação por que é conhecido o preceito constitucional que impede a apresentação de iniciativas legislativas parlamentares que envolvam, no ano económico em curso, aumento das despesas ou diminuição das receitas previstas no Orçamento do Estado». Nota final: continuo a ver, na esmagadora maioria dos casos, com hífen, «lei-travão». Exactamente: preceito constitucional. Já foi lei, já.

 

[Texto 14 901]

Léxico: «lamarosense»

E porque é verdade

 

      Uma embaixada de todas as Lamarosas do País apareceu-me ontem à noite à porta de casa exigindo que a Porto Editora acolhesse lamarosense no seu largo seio. Ainda me senti subitamente inclinado para dizer que o patrão não estava (como fazia uma tia conhecida minha quando supostos credores lhe telefonavam ou batiam à porta), mas a coda do discurso do que falava foi de molde a persuadir-me. Que só se atreviam a pedir a minha intercessão porque outros já tinham sido atendidos em casos iguais. E porque é verdade, mando, etc.

 

[Texto 14 900]