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Linguagista

Léxico: «flaviano»

Até os imperadores esquecem

 

      O anfiteatro flaviano era contemplado com respeito e admiração pelos peregrinos do Norte, descendentes daqueles Bárbaros que assolaram a Itália, mas que, afinal, terão contribuído bem menos do que os Italianos para reduzir a quase nada as obras grandiosas legadas pela Antiguidade. E por quase nada: onde está, Porto Editora, o adjectivo flaviano, relativo tanto à dinastia iniciada com Tito Flávio Vespasiano como à começada por Constâncio Cloro?

 

[Texto 14 911]

Léxico: «pandeirinha | verónica»

Pouco vera

 

      «A tradição evoca esta piedosa mulher a enxugar o rosto de Jesus com um lenço no qual a Sua face ficou milagrosamente impressa a sangue. Desta verdadeira imagem de Jesus (desta “Vera Icone”) derivou o nome Verónica, nome que a devoção popular acabou por dar à mulher. Por isso a personagem Verónica, em alguns lugares conhecida como a pandeirinha, é uma das figuras mais importantes da procissão do enterro do Senhor, na qual vai exibindo o ícone impresso no lenço. É natural que este lenço seja, ao menos no que ao rosto de Jesus diz respeito, uma réplica do Santo Sudário de Turim. Quanto à existência real ou fictícia da Verónica, atendamos aos relatos da Paixão onde se fala das filhas de Jerusalém. Para isso, recuemos até ao ano 33 da nossa era, aos dias solenes e festivos da Páscoa judaica, em Jerusalém» («A Verónica», Manuel Maria Madureira, A Defesa, 31.03.2021, p. 5).

      Devoção popular e etimologia popular. Não é isto que nos interessa, mas sim dicionarizar esta pandeirinha. Contudo, alguma coisa se tem de corrigir: a Porto Editora afirma que é o «pano onde está pintada ou estampada a imagem do rosto de Cristo», mas em tudo o lado vejo referência a lenço. Investigue-se.

 

[Texto 14 910]

Léxico: «letrismo»

Falta de atenção

 

      «Existe ainda “letrismo”, que o Houaiss data do século XX, sem etimologia, e para o qual dá como primeira aceção a de atributo de quem sabe ler e escrever. Talvez esta forma provenha do francês iléttrisme, cunhado pelas décadas de 1970 ou 1980, para denominar a incapacidade de compreender um texto escrito; léttrisme designa em francês a corrente literária inaugurada por Isodore Isou [1925-2007] em 1946» («Da prole de littĕra, ou de como o léxico se vai adaptando às necessidades», Margarita Correia, Diário de Notícias, 5.04.2021, p. 28).

      Isso mesmo, tem duas acepções, mas no dicionário da Porto Editora só vamos encontrar «iletrismo». Não surgiu na década de 90...

 

[Texto 14 909]

Léxico: «acelerómetro»

Comprem outros

 

      «Para “criar redundância” no sistema, e uma vez que “os sismómetros às vezes saturam no caso de sismos fortes”, as quatro estações incluem ainda acelerómetros à superfície, que “caracterizam de forma eficaz os movimentos” dos sismos, frisou [Mourad Bezzeghoud, professor do Departamento de Física e investigador no Instituto de Ciências da Terra (ICT) da Universidade de Évora]» («Sistema de Alerta Precoce de Sismos vai ser instalado no Algarve», Diário de Notícias, 31.03.2021, p. 13).

      Parece-me claro que os acelerómetros da Porto Editora não servem para este fim: «1. FÍSICA instrumento para medir acelerações; 2. MILITAR aparelho destinado a medir a pressão dos gases do explosivo no interior dos canos das armas de guerra». Olha, compra outros.

 

[Texto 14 908]

Léxico: «plurinominal»

Alguém se esqueceu

 

      «A revisão constitucional que abriu a pressão para menos deputados é a mesma que abriu a porta a um sistema misto com círculos plurinominais e uninominais complementares (e um círculo nacional), aumentando o poder de escolha dos eleitores e responsabilizando os deputados. Falo da revisão de 1997. Há 24 anos que esperamos por esta promessa da Constituição» («Temos deputados a mais?», José Ribeiro e Castro, Diário de Notícias, 31.03.2021, p. 8). Só num dicionário bilingue? Alguém se esqueceu de fazer o trabalho.

 

[Texto 14 907]

Léxico: «déspota | despotado»

Se for para rir

 

       Fala-se aqui no déspota do Epiro, e eu só posso rir com a definição de déspota nos nossos dicionários. Valha por todos o que se lê no dicionário da Porto Editora: «que ou pessoa que exerce a autoridade de modo absoluto e arbitrário; tirano; opressor; autocrata». Agora atente-se na definição do Treccani: «1. a. Nell’antica Grecia, il padrone di casa, spec. nei rapporti con i servi. b. Titolo dato agli dei e ai monarchi degli imperi orientali, nel senso di sovrano assoluto. c. Dopo il 7° sec. d. C., titolo d’onore dell’imperatore d’Oriente e successivamente titolo dei figli, fratelli e generi del sovrano (indicava quindi il grado più alto della gerarchia bizantina), e inoltre di alcuni principi vassalli, che lo conservarono quando si resero indipendenti. Fu anche uno dei titoli ufficiali dei dogi veneziani. 2. Per estens., nel mondo moderno: a. Sovrano che governa con potere assoluto e arbitrario, tiranno. b. Chi abusa della propria autorità e pretende di essere ciecamente ubbidito: essere un d. in famiglia; fare il d. con i proprî dipendenti.» E onde pára o verbete de despotado, pode saber-se?

 

[Texto 14 906]