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Linguagista

Léxico: «suco»

Então também é nossa

 

      «José Serra, um dos portugueses que vivia há mais tempo em Timor-Leste, onde chegou em meados da década de 1960, morreu esta sexta-feira, aos 90 anos, em Maubara, a oeste de Díli, disse à Lusa fonte da família. [...] Até visitar Díli era algo pouco comum para o ‘avô’, que preferia a tranquilidade do topo do monte do pequeno ‘suco’ de 10 aldeias a oito quilómetros da vila de Maubara» («Morreu o “avô” Serra, um dos portugueses que vivia há mais anos em Timor-Leste», TSF, 9.04.2021, 9h53).

      Se Timor-Leste foi nosso, então não há dúvida alguma de que a palavra tem de ir para os nossos dicionários. (Era aqui que eu devia contar a história de um tipo bera que conheci há uns anos. Tinha ido cumprir, castigado, para Timor-Leste o serviço militar. Não, não conto mais.)

 

[Texto 14 937]

A lei e o juiz

Em que se fala do Acordo Ortográfico

 

      Eu até lia as 6728 páginas da decisão instrutória da Operação Marquês — se não tivesse mais nada que fazer. Ainda assim, guardei aqui o documento no computador. Para já, não precisei de passar da primeira página para perceber isto: as regras do Acordo Ortográfico de 1990 não foram aplicadas. Vá, obriguem lá o juiz a cumprir, se forem capazes. (Ignorantes.)

 

[Texto 14 936]

Definição: «comuna»

Todos juntos, é isso?

 

      «Os agravos dos procuradores da comuna judaica de Lisboa contra o rabi-mor Judas Cohen levaram ainda o monarca a especificar pormenorizadamente todas as competências do cargo, da mesma forma que legislou sobre os demais rabis» (D. João I: o que re-colheu Boa Memória, Maria Helena da Cruz Coelho. Lisboa: Temas e Debates, 2008, p. 318).

      Para o dicionário da Porto Editora, comuna, nesta acepção, é o «antigo agrupamento de Judeus e Mouros que viviam em arruamentos especiais». Queriam escrever de «judeus e mouros», com certeza. Bem, mas ao que interessa: com esta redacção, o leitor pouco sabedor (uns milhares) não ficará a pensar que nas comunas viviam, juntos, mouros e judeus?

      No caso das comunas de judeus: «As comunas têm a sua escola elementar e o Beth Hamidrash, ou casa de comentário das Escrituras Sagradas» (Os Judeus em Portugal no Século XIV, Maria José Pimenta Ferro Tavares. Lisboa: Guimarães, 1979, p. 34). Como também têm a sinagoga, instituições de beneficência, cemitérios próprios, etc.

 

[Texto 14 935]

Léxico: «dessabença»

Avança, pois

 

      «Depois de uma crítica geral à produção que nos últimos anos apareceu proposta como da literatura colonial, Castro Soromenho denuncia-lhe a incompreensão da terra e do povo de África, classificando a literatura colonial até então produzida por “uma literatura pelintra e reles” que encontra, mercê da dessabença que muitos portugueses da Europa têm da nossa África, amparo na benevolência de meia dúzia de leitores e alento nos magros, e únicos, prémios pecuniários da Agência Geral das Colónias» (A Formação da Literatura Angolana (1851-1950), Mário António. Lisboa: INCM, 1997, p. 232).

 

[Texto 14 934]

«Tratar-se de» — nunca aprenderão

A dessabença avança

 

      Uma petição com quase duzentas mil assinaturas para afastar o juiz Ivo Rosa... O vírus deu mesmo forte na cabeça desta gente. E os jornalistas também acham que sabem o que o juiz devia ter feito. Até acham que sabem escrever: «O Ministério Público vai necessitar de 120 dias para construir a argumentação que terá de apresentar no Tribunal da Relação de Lisboa. Tratam-se de dias seguidos e não de dias úteis, mas isso significa de qualquer forma que o recurso só estará pronto a meio de agosto» («Sócrates pode ser julgado já. E pode ser um julgamento rápido», Micael Pereira, Expresso, 10.04.2021).

 

[Texto 14 933]