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Linguagista

Definição: «formiga-de-fogo-vermelha»

Ai, credo

 

      Voltemos um pouco atrás, para vosso próprio bem. Formiga-de-fogo-vermelha: «ZOOLOGIA (Solenopsis invicta) formiga de coloração avermelhada, da família dos Formicídios, nativa da América do Sul e considerada invasora em diversas áreas do planeta, que se caracteriza pelo comportamento agressivo e ferroada dolorosa». O que tu queres dizer, Porto Editora, é Formicídeos, ou Formícidas. É erro que também encontramos no verbete de formiga-de-fogo. É verdade, e digo-o para o desânimo não ser total, que formicídio também existe — é o extermínio de formigas. Mas uma formiga participar nisso... Enfim, também homo homini lupus.

 

[Texto 14 943]

O que se diz por aí

Prove

 

      «O que eu estou a dizer é que, para mim, e para os dicionários também, se quiser, nostalgia tem um espectro mais alargado [do que saudade]», afirmou, com toda a convicção, Júlio Machado Vaz na última emissão do programa O Amor É... Então, a teoria de Júlio Machado Vaz — que afirmou, como se vê, ver corroborada nos dicionários, só não disse quais — é a de que a nostalgia tanto é em relação ao passado como ao futuro. Assim, eu tanto posso sentir nostalgia das tardes que passava com a minha namorada Ana Sofia, como das sessões telepáticas com pessoas de todo o mundo, graças a chips implantados no cérebro, que terei no ano 2065. Está bem, está...

 

[Texto 14 942]

Definição: «arresto»

Isso não é confundir tudo?

 

      «No despacho instrutório, proferido na sexta-feira, o juiz Ivo Rosa ordenou o levantamento imediato do arresto de vários bens imóveis dos arguidos, designadamente três casas localizadas em S. Martinho (Sintra), o Monte das Margaridas, em Montemor-o-Novo, adquirido pela ex-mulher de Sócrates Sofia Fava, um apartamento de seis assoalhadas na avenida President Wilson, em Paris, dois imóveis no Cacém e um apartamento de luxo no edifício Heron Castilho, na rua Braamcamp, em Lisboa» («Juiz levanta arresto a casa da rua Braamcamp e apartamento de Paris», Rádio Renascença, 10.04.2021, 16h14).

      O arresto, diz-nos a Porto editora, é a «apreensão judicial de bens do suposto devedor, que ficam à ordem do tribunal e servem de garantia da eventual execução que contra ele possa vir a ser efectuada». Será a melhor definição? Parece-me a mistura do arresto em Processo Civil e o arresto preventivo do Processo Penal. No caso do processo da Operação Marquês, é claro que estamos a falar deste último tipo, porque o que o Estado, por intermédio do tribunal, pretende acautelar é que os bens, móveis e/ou imóveis, dos arguidos sirvam para garantir o cumprimento de pena de multa, indemnizações cíveis, custas do processo ou de qualquer outra dívida para com o Estado relacionada com o crime.

 

[Texto 14 941]

Léxico: «patricídio | patricida»

E por isso melhor

 

      Está aqui uma (num livro, graças a Deus, não em pessoa — mas tenho sempre um taco de beisebol perto da porta) a confessar que cometeu patricídio. Ora, a palavra desapareceu há muito dos nossos dicionários. De quase todos. Mas está em Morais e devemos usá-lo e fazê-lo regressar a todos os dicionários. É que parricídio é o assassínio do próprio pai ou ascendente próximo, ao passo que patricídio é o assassínio do próprio pai. É mais específico, o que só traz vantagens. No caso daquela personagem, matou mesmo o pai. Precisamos de mais palavras, não de menos. Precisamos, sobretudo, de recuperar as que já tivemos.

 

[Texto 14 940]

Como se escreve por aí

Talvez pensar melhor

 

      «Longe no tempo da era dos dragões, nas fronteiras dos territórios não mapeados, a informática dos séculos XX e XXI apropriou-se da expressão Hic Sunt Dracones, adotando-a na sua versão em língua inglesa Here be dragons. Um léxico na cartografia digital que assinala aos exploradores informáticos partes especialmente complexas ou menos claras no código-fonte de diferentes programas» («“Aqui estão os dragões”, a expressão que viajou do século XVI para o mundo digital», Jorge Andrade, Diário de Notícias, 5.04.2021, p. 15).

      Por acaso sabemos o que queria dizer, Jorge Andrade, mas isso é da experiência de ver tantos erros.

 

[Texto 14 939]

Léxico: «masonite»

Anda por aí

 

      «Après les constellations, duas pinturas feitas em 1976 sobre masonite, um tipo de aglomerado de madeira em que o pintor explorou a superfície rugosa, estão entre as novidades mais interessantes. Estreitas e compridas, com um formato pouco habitual mas que associamos a Miró (14cmx79cm e 14cmx54cm), paramos obrigatoriamente em frente a elas, não só por causa deste jogo das novidades, mas porque o curador desta exposição — que é a mesma nos dois espaços apesar dos pequenos ajustamentos — está visivelmente entusiasmado com as obras sobre masonite, um material industrial surgido na primeira metade do século XX. Robert Lubar prepara uma exposição para daqui a quatro anos na Fundação Miró de Barcelona, de que é administrador, dedicada às obras realizadas sobre este suporte inusitado explorado pelo artista catalão (1893-1983)» («Como ver os nossos Mirós», Isabel Salema, «Ípsilon»/Público, 14.09.2017, 15h08).

 

[Texto 14 938]