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Linguagista

Persiste a confusão entre «cidra» e «sidra»

A minha homenagem

 

      «A Selza promete agitar o mercado português das bebidas. É uma água com gás que tem 5% de álcool e que compete com as cidras e as cervejas por causa da cana de açúcar e das baixas calorias. Lima-hortelã e manga são os dois sabores disponíveis» («Fazedores», Diogo Ferreira Nunes, Dinheiro Vivo, 27.03.2021, p. 24).

      «Desde os seis anos que leio, vejo e oiço notícias», lê-se no perfil do jornalista. Desde os seis anos... E, contudo, até hoje não conseguiu perceber que há cidra e sidra. Uma das minhas memórias mais vívidas é, muito pequeno ainda, estar no chão em cima de jornais a decifrar o que podia, a fazer recortes, a brincar. Não fui para jornalista. Um dos jornais de que mais gostava era O Comércio do Porto, que o meu tio Plácido deixava em casa do meu avô Manuel Maria (não era, repito, filósofo). Mas para que vos estou a contar isto? Conheço-vos de algum lado? Andor!

 

[Texto 14 962]

Léxico: «biotoxina»

Sexto, mas não último

 

      «O consumo de moluscos pode deixar de ser uma rotina para se tornar um perigo, porque as contaminações por biotoxinas marinhas se tornam cada vez mais frequentes. É o caso da saxitoxina paralisante. Estava confinada à costa ocidental dos EUA na década de 70, mas desde 2017 há notícias de intoxicações, nalguns casos mortais, em todas as zonas costeiras do mundo» («A vingança dos bichos e a morte dos oceanos», Rui Cardoso, «Revista E»/Expresso, 5.03.2021, p. 38).

      O quê, biotoxina no dicionário especializado e saxitoxina no dicionário geral, Porto Editora? Vou fingir que compreendo a lógica disso.

 

[Texto 14 961]

Definição: «censo»

E alojamentos e edifícios

 

      «A operação Censos 2021 começa esta segunda-feira com a entrega das cartas que habilitam os cidadãos a responder pela Internet às perguntas do recenseamento, condicionado este ano pela pandemia da covid-19» («Operação Censos 2021 assente na Internet arranca segunda-feira com entrega de códigos», Diário de Notícias, 3.04.2021, 11h21).

      Neste senso (não resisti), censo é, para o dicionário da Porto Editora, a «determinação do número de habitantes de um dado território, com a indicação dos respectivos dados (sexo, naturalidade, estado civil, etc.); recenseamento». Talvez o Instituto Nacional de Estatística esteja mais habilitado a definir o termo: «Nos nossos dias, e segundo os Princípios e Recomendações da ONU (2006), os Censos são entendidos como processos normalizados de recolha, tratamento, avaliação, análise e difusão de dados referenciados a um momento temporal específico e respeitantes a todas as unidades estatísticas (indivíduos, famílias, alojamentos e edifícios) de uma zona geográfica bem delimitada, normalmente o país.»

 

[Texto 14 960]

Léxico: «maca»

Não é uma espécie de cama

 

      Vejo aí por todo o lado à venda (por exemplo, no Celeiro) maca moída. A maca, ou maca-peruana (Lepidium meyenii), é uma planta herbácea bianual nativa da região dos Andes, no Peru, mas pode ser encontrada na Bolívia, Colômbia, Chile e Argentina. Parece que é conhecida pelo seu poder de aumentar a libido e a fertilidade. Já neste século, os Chineses levaram quanta puderam do Peru. Agora, já são os maiores produtores mundiais. Os Chineses são um povo admirável, disso não há dúvida. Felizmente, vivem lá longe.

 

[Texto 14 959]

Os outros nomes dos Cistercienses e dos Cluniacenses

Os Brancos e os Negros

 

      «Após o concílio de Trento, os dois ramos dos beneditinos, ordens até então cingidas ao mundo rural, instalaram conventos dentro das cidades. Os cistercienses, ditos os Brancos dada a cor da capa, abrem no convento do Desterro uma “sucursal” da casa-mãe de Alcobaça. Quanto aos cluniacenses, chamados os Negros, por ser dessa cor a sua larga capa, vieram de Tibães e Santo Tirso para a capital. Adquiriram uma enorme propriedade na encosta que hoje chamamos a Estrela, limitada em baixo pelo vale que rapidamente se chamou de São Bento. [...] Acontece que os padres Negros, como todos lhes chamavam, dispunham, no limite sul da propriedade, de um poço farto que rapidamente – talvez até para ganhar simpatias – puseram à disposição da vizinhança. Daí, agradecidos, os beneficiários usufruíam a água preciosa que os padres lhes ofereciam, chamando-lhe por isso o Poço dos Padres Negros, ou, para encurtar, o Poço dos Negros» («O Poço dos Negros», José Sarmento de Matos, Público, 16.09.2012, 00h00).

     Se não pusermos isto nos dicionários, onde o pomos, não me dizem? Nas raspadinhas? Nas caixas Multibanco? Basta figurarem como sinónimos nos verbetes de cisterciense e cluniacense.

 

[Texto 14 958]

Léxico: «simportador»

Se não se importa

 

      «A jovem [Márcia Faria] de 28 anos, cientista da Unidade de Biologia Molecular do Serviço de Endocrinologia do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte, foi distinguida pela investigação sobre o “simportador de sódio e iodo na terapêutica com iodo radioativo e o avanço no tratamento de metástases do carcinoma da tiroide”» («Cientista portuguesa conquista prémio europeu com trabalho sobre cancro da tiroide», Olímpia Mairos, Rádio Renascença, 15.04.2021, 14h06).

      Sim, vem do inglês symporter — mas o que é preferível? Temos de o dicionarizar, pois que já é, e bem, usado.

 

[Texto 14 957]

Léxico: «nidificante»

Assim não

 

      «Não é preciso ter formação específica na área. Carlos Santos é biólogo, mas Miguel Gaspar é professor de Espanhol. O primeiro tem a sua quadrícula (área que é visitada duas vezes por ano, para contabilizar as espécies nidificantes terrestres) dentro do Parque Natural do Douro Internacional, em Mogadouro; o segundo colabora com a monitorização de duas áreas distintas: uma em Sesimbra, perto de casa, outra no concelho de Mação, de onde eram os pais e avôs. Entre um e outro não se distingue qualquer diferença no entusiasmo pelo mundo das aves» («Tem visto pardais por aí? Voluntários ajudam a traçar o retrato das nossas aves comuns», Patrícia Carvalho, Público, 5.04.2021, p. 16).

      Apanhei-te mais uma vez, Porto Editora. Então tu usas a palavra nidificante e não a dicionarizas?

 

[Texto 14 956]