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Linguagista

Léxico: «em roda livre»

Vamos lá mudar isto

 

      «Os ministros, de quando em vez recebidos pelo chefe do governo, despachavam em roda livre, quase em autogestão» (De Salazar a Costa Gomes, Manuel Maria Múrias. Lisboa: Nova Arrancada, 1998, p. 127).

      Mais uma expressão fora dos nossos dicionários. São MESMO dicionários fora dos dicionários. O pobre falante anda à nora, perdido, e, ignorante, acaba por afirmar que o inglês é que é bom.

 

[Texto 14 987]

 

Léxico: «ajudense» e mais catorze

É estar de olhos abertos

 

      É claro que não estou a inventar. Estou, como sempre, atento ao uso da língua e ao léxico. «Na semana passada, os vereadores do PCP enviaram um comunicado em que revelam a sua oposição ao projecto, dizendo ter sido o único partido do executivo que votou contra a proposta, “por entender que não é a solução adequada para a freguesia e a cidade”. Para João Ferreira e Ana Jara, “esta unidade de execução quer construir mais um condomínio privado, inacessível para a maioria dos ajudenses e que pouco contribui para a dinamização da vida da freguesia, demolindo instalações de associações e casas de habitação, levantando uma barreira de betão na Bica do Marquês que transformará a vivência dos actuais moradores daquela zona e não garantindo o que efectivamente é preciso na Ajuda: habitação a custos acessíveis e espaços verdes para todos”» («Já há planos para terrenos abandonados junto ao Palácio da Ajuda», Cristiana Faria Moreira, Público, 18.04.2021, p. 17).

      «Queria pesquisar abadense, abidense, aguedense, ajudante, arrudense, soudense, tabudense, tudense?» Não tens ajudense, Porto Editora? Então e abrigadense, avelarense, bajouquense, carapinheirense, guiense, maniquense (de Manique de Baixo), marmeleirense, moçarriense, pevidense, pontevelense, sernachense, sobredense, trafariense, vidigalense?

 

[Texto 14 986]

Léxico: «transtasmânico»

Receita para o desastre

 

    Esta gente recusa-se a usar a analogia para escrever o que não está dicionarizado. Costuma redundar em desastre. «Mais de uma [sic] ano depois, já se pode viajar de novo sem restrições entre a Austrália e a Nova Zelândia. Ambos os países da chamada “bolha trans-Tasmânica” reduziram os casos de covid-19 a praticamente zero» («Ordem para desconfinar», Cristina Peres, Expresso Curto, 19.04.2021).

 

[Texto 14 985]

Definição: «ascensor | guarda-freio»

Aqui não há andares

 

      «Bastam dois minutos para fazer um percurso que, a pé, demoraria um pouco mais, mas, sobretudo, custaria bastante mais. A bordo do ascensor do Lavra, que sobe e desce a calçada com o mesmo nome entre o Largo da Anunciada e a rua Câmara Pestana, perto do Jardim do Torel, percorrem-se 188 metros íngremes e muita história. Este é o ascensor mais antigo de Lisboa, faz hoje 137 anos que ali começou a funcionar, mas também o menos movimentado e o menos conhecido. Pedro Martins Carvalho, 45 anos, já perdeu a conta às vezes que fez aquele caminho, não fosse ele um dos guarda-freios que manobram aquela máquina» («Um percurso de dois minutos com 137 anos de história», Sofia Fonseca, Diário de Notícias, 19.04.2021, p. 18).

      Não sei se a definição de guarda-freio no dicionário da Porto Editora contempla estes, pois diz que é «1. indivíduo que vigia e maneja os freios das carruagens de um comboio; 2. empregado que, ao freio, guia os carros eléctricos». Diria que não. O que de certeza não está naquele dicionário é este tipo de ascensor, pois a definição apenas diz isto: «aparelho mecânico que conduz pessoas ou carga aos vários andares de um edifício; elevador».

 

[Texto 14 984]

Léxico: «valenciano»

Em que se fala de arroz

 

      «O castelhano é a língua oficial do Estado Espanhol (art.º 3, al. 1. da Constituição) e cooficial de outras faladas em Espanha nas regiões onde são faladas (galego, eusquera, castelhano, valenciano)» («Abril, comemorações mil!», Margarita Correia, Diário de Notícias, 19.04.2021, p. 29).

      Pois claro, já que o valenciano é, como se lê no Dicionário da Real Academia Espanhola, uma «variedad del catalán que se habla en gran parte del antiguo reino de Valencia y se siente allí comúnmente como lengua propia». A Porto Editora não sabe disto. Vejo, contudo, que registas arroz à valenciana, que defines como o «prato de arroz, preparado à maneira de Valença, com carnes diversas, marisco e legumes». Mau... então o nosso — de nome — arroz à valenciana não é a paelha espanhola e, logo, de Valencia, não da nossa Valença? Já perdi o apetite.

 

[Texto 14 983]

Prefiro uma modelo

Cada um sabe de si

 

      «Quando atingimos o alto da escada, eu vejo nitidamente que todos os olhos se fixam em nós e que há uma pergunta que ecoa em todas as cabeças: “Quanto é que aquele gajo terá pago para vir jantar com um modelo destes?”» («Susana em lágrimas», Manuel Alberto Valente, «Revista E»/Expresso, 5.03.2021, p. 65).

      Mas quem é que fala assim? Estou a brincar. Muita gente. Mas prefiro assim: «O que aconteceu a Dejanira, uma modelo de roupa interior que já tinha participado em certames lá de fora, é pouco menos do que sublime» (Antes do Degelo, Agustina Bessa-Luís. Lisboa: Guimarães Editores, 2004, p. 103). Alona Kimhi, escreve Manuel Alberto Valente, era «uma asquenaze típica, loira, alta, bonita». Talvez para se vingar daquela noite de secreta inveja, alguém no Expresso escolheu criteriosamente uma foto (sem minissaia à vista) em que a ex-modelo aparece com cara de poucos amigos e muito menos loira e bonita.

 

[Texto 14 982]

Léxico: «baile mandado | mandador»

Senhor director

 

      «O “baile mandado” é um dos mais antigos e conhecido dos bailes de roda algarvios, em que os pares cumprem as ordens do chamado mandador, a figura que comanda o baile. No caso do projeto da PédeXumbo, o termo pretende abranger diferentes danças que existem um pouco por todo o mundo, tendo em comum a existência de um mandador que “anuncia figuras coreográficas a executar” e que, por vezes, “pode ser bailador ao mesmo tempo, ou ficar ao lado dos tocadores”» («O regresso dos “bailes mandados”. Associação PédeXumbo recupera tradição», Rosário Silva, Rádio Renascença, 19.04.2021, 15h13).

      Baile mandado não encontramos nos dicionários e mandador talvez apareça demasiado formal ou pomposo, como no dicionário da Porto Editora: «director dos bailes de roda populares, no Algarve».

 

[Texto 14 981]