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Linguagista

Léxico: «incomprável»

Também lá cabe

 

      «Sobre este tema, Marcelo Rebelo de Sousa afirma, em declarações à Sábado: “Eu sou incomprável e os portugueses sabem disso”» («Depoimento de Pedro Queiroz Pereira liga Salgado a Marcelo», Jornal de Negócios, 15.04.2021, 9h34).

      Incomprável e, dizemos nós, incomparável. A Porto Editora não o acolhe, mas é tão legítimo como invendível (e mais legítimo do que invendável), que regista.

 

[Texto 14 999]

Léxico: «ordem»

Estavam a pedi-las

 

      «José Adelino Maltez disparou a torto e a direito: chamou aos deputados ignorantes, ridículos e reaccionários, mandou-os lerem e estudarem, disse não estar “para aturar” deputados nem partidos, e avisou que nenhum maçon irá cumprir uma lei que os obrigue a declarar se são ou não elementos da Maçonaria — começando por ele próprio. [...] E avisou que “um maçon está em dissidência permanente”, cria e frequenta as lojas que quiser ou inscreve-se numa estrangeira e aí deixa de ser enquadrado por qualquer lista que os deputados queiram definir. Além disso, “não tem carácter associativo; é uma ordem, uma aliança de homens livres e de bons costumes”; “o maçon nasceu para não confessar ao príncipe e ao bispo que era maçon”» («Grão-mestre do GOL avisa que maçons irão desobedecer à lei», Maria Lopes, Público, 21.04.2021, p. 3).

      O Estado a querer meter o bedelho em tudo. Era só que faltava. Mas no que nos diz respeito: não vejo esta acepção de ordem nos nossos dicionários.

 

[Texto 14 998]

 

Léxico: «histrionismo»

É uma doença

 

      «Na sua obra, há um histrionismo fundamental: ela é uma representação, no sentido teatral do termo; o elemento espontaneidade é dominado pela necessidade de um equilíbrio de valores exigida pela “imagem” de uma harmonia final para a qual tudo nela tende» (O Que Foi e o Que não Foi o Movimento da Presença, Adolfo Casais Monteiro. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995, p. 152).

      Alguém — adivinhem quem — fica a perder quando a Porto Editora considera que histrionismo é apenas termo médico.

 

[Texto 14 997]

Léxico: «novilíngua»

Para os néscios e para os outros

 

      «Independentemente de controvérsias, temos de tomar consciência de que se trata de um património cultural partilhado, língua de várias culturas e cultura de várias línguas, que terá mais de 500 milhões de falantes no final do século. Temos de cuidar bem desse valor, para que o português seja bem falado e escrito (com os verbos intervir e haver bem conjugados, com o plural de acordo sem ó aberto), sem o massacre dos pronomes; sem erros escusados de uma novilíngua orwelliana – como resiliência em vez de resistência; implementação em vez de execução ou até implemento; evidência em vez de prova; empoderamento em vez de capacitação. Ler ou ouvir grandes escritores é o melhor caminho – disse-o Filinto Elísio: “Aprendei, estudai; / e os bons autores sabereis ter em crédito e valia. / Eles a língua em seu primor criaram / eles no-la poliram”» («A magia da palavra...», Guilherme d’Oliveira Martins, Diário de Notícias, 20.04.2021, p. 29).

      Não devia estar em todos os dicionários, uma vez que é usada diariamente? E, como em relação a tudo, já há néscios e pretensiosos a usarem-na sem saber do que se trata.

 

[Texto 14 996]

Como se escreve por aí

Abarbatar

 

      «Tiffany Brar, cega de nascença, acolheu o Prémio Holman, instituído desde 2017, em proveito de pessoas invisuais que demonstrem espírito aventureiro» («James Holman, o “viajante cego” que calcorreou o mundo do século XIX», Jorge Andrade, Diário de Notícias, 12.04.2021, p. 13).

      Hum, os dicionários de sinónimos servem melhor a poesia, mais subjectiva e a pedir mistério, ambiguidade... Enfim, Tiffany Brar acolheu lá em casa o Prémio Holman, é isso? Qual é o problema com o verbo «receber», pode saber-se? Ou será para imitar o título do jornal The New Indian Express, «Tiffany Brar bags Holman Prize 2020»?

 

[Texto 14 995]

 

Léxico: «biocerâmica»

Não apareceu agora

 

      «A biocerâmica é usada nos mostradores, presilhas e braceletes dos novos relógios da coleção Big Bold, apresentada à imprensa mundial recentemente num evento virtual. [...] De acordo com a Swatch, a cerâmica biológica é, na sua forma mais pura, composta por dois terços de cerâmica e um terço de plástico de origem biológica – daí a designação. Como curiosidade, a biocerâmica tem sido usada em outras indústrias como nos implantes dentários ou utensílios para cozinha. É conhecida pela sua plasticidade, fácil manuseamento e resistência» («Swatch. Tomar o pulso à sustentabilidade», F. Q., Diário de Notícias, 20.04.2021, p. 30). Não apareceu agora, e por isso já devia estar nos nossos dicionários.

 

[Texto 14 994]