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Linguagista

Léxico: «raleira»

A que mais nos preocupa

 

      «E quando tudo estiver terminado, e depois das raleiras a que não pudemos poupá-la, das mazelas, das fadigas, dos explosivos ou azedos humores, do pouco e do muito que ela, no momento certo, com um agudíssimo sentido da decisão avisada, saberá resolver, depois de findas as semanas em que os três temperamentais portugueses dela dependerão, assim lhe disturbando a cadência dos dias, arredando-a das tarefas, da família, dos lazeres, ela, esta Elena que nos falará muitas vezes do seu autodomínio, do autodomínio dos Russos, de uma disciplina nas exteriorizações que talvez seja o seu épico mas frágil combate, dando-me o exemplo de num repente passar da vigília ao sono e sair retemperada desses minutos bem dormidos, para tal bastando apoiar a cabeça na mão espalmada, esta Elena investigadora, mãe de família, dona de casa, sempre numa roda-viva que ainda lhe dá tempo para o deleite da contemplação, esta Elena desabafará, rendendo-se a uma emotivadade inultimente [sic] refreada» (URSS mal amada, bem amada, Fernando Namora. Lisboa: Bertrand Editora, 1986, p. 56).

      Pois é, Porto Editora, não tens esta raleira, e é logo, para grande azar, a que mais nos preocupa. (Trata-se, ali acima, de Elena Wolf [1927-1989], filóloga, investigadora, professora na Lomonossov de Moscovo, autora de um Dicionário Inverso da Língua. Talvez merecesse mais estar nas nossas enciclopédias do que outros que lá encontramos.)

 

[Texto 15 168]

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