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Linguagista

Léxico: «espelho ustório | espelho ardente»

Isto é que não pode ser

 

      Também é pena o espelho ustório, ou espelho ardente, estar apenas em dicionários bilingues, Porto Editora. Não me caíram do céu, encontrei-os aqui numa tradução. (Ah, sim, já vi que cintagem, contranarrativa, lagostim-marmoreado, cabomba-verde, almoçárabe, etc., estão de quarentena. Para comemorar o Dia Mundial da Língua Portuguesa.)

 

[Texto 15 051]

Os Glazers, pois claro!

Pode ser que isto ainda mude

 

      «A revolta dos adeptos do Manchester United não foi aplacada com o projeto fracassado da superliga europeia e ontem decidiram marcar posição, ao invadir o relvado do estádio Old Trafford entre cânticos e cartazes a exigir o afastamento dos atuais proprietários, a família Glazer. [...] Neste domingo, em sinal de protesto, muitos dos adeptos do United voltaram a usar as cores verdes e douradas de Newton Heath, o clube fundado em 1878 que acabou por se tornar no Manchester United 24 anos mais tarde. De verde e dourado ou de vermelho, todos marcaram posição contra os Glazers» («“Nós decidimos quando jogam.” Fãs do Man. Utd afrontam proprietários», César Avó, Diário de Notícias, 3.05.2021, p. 24).

      Os jornalistas vão percebendo — agora só falta ensinar o óbvio a certos gramáticos, em quem certos tradutores vão buscar amparo.

 

[Texto 15 050]

Como se escreve nos jornais

Não façam isto

 

      «Merian,, [sic] cujo nome inspirou as designações científicas de vários insetos, nomeadamente uma borboleta descoberta no Panamá em 2018, teve a sua esfinge reproduzida nas notas alemãs de 500 marcos até à entrada em vigor do euro» («Dos jardins de Frankfurt para a América do Sul, a vida da menina que adorava bichos-da-seda», Jorge Andrade, Diário de Notícias, 3.05.2021, p. 12).

      Por sorte, na versão digital é um artigo exclusivo para os assinantes, pelo que os estragos foram mais contidos. Esperemos que seja lapso, que não convicção.

 

[Texto 15 049]

Léxico: «metilmercúrio»

Em nenhum

 

      «Sabe-se, por estudos anteriores, que as bactérias transformam o mercúrio inorgânico em mercúrio orgânico, “que é mais tóxico”, referiu o investigador português [João Canário, especialista em química ambiental]. A forma mais tóxica de mercúrio, com efeitos nocivos para animais e humanos, tem o nome de metilmercúrio» («Cientistas portugueses vão ao Ártico estudar o impacto do mercúrio na vida humana», Diário de Notícias, 3.05.2021, p. 13). Metilmercúrio (MeHg), que não encontro nos nossos dicionários. Mas para quê, não é?, vamos todos falar inglês.

 

[Texto 15 048]

Léxico: «euro-afro-asiático»

Por precaução

 

      «Existe quem ache que o português são dois: o que se fala no Brasil (que já nem português é) e a “variedade euro-afro-asiática e oceânica”, codificada e regulada por Portugal, cuja norma é acriticamente seguida pelos restantes países, por falta de massa crítica e pensamento linguístico, mas também por apreço pelo “colonialismo fofinho”» («O que queremos desta língua?», Margarita Correia, Diário de Notícias, 3.05.2021, p. 28).

 

[Texto 15 047]

Definição: «pluricêntrico»

Porque não é assim

 

      «Existe quem compreende que as línguas são como os filhos (parimo-los e criamo-los, mas o seu futuro não nos pertence), que elas pertencem a quem as escolhe e fala. Os partidários desta visão acreditam numa língua pluricêntrica, que, para se manter una, carece de gestão partilhada, provavelmente supranacional, com negociações e acordos constantes. Esta visão é de longe a mais difícil de executar, a mais exigente, a que requer maior investimento e de futuro menos previsível» («O que queremos desta língua?», Margarita Correia, Diário de Notícias, 3.05.2021, p. 28).

      Salvo pior opinião (vamos pôr isto ao contrário), Porto Editora, não podes circunscrever, confinar, o adjectivo pluricêntrico ao domínio da geometria.

 

[Texto 15 046]