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Linguagista

Léxico: «pascaliano | pascalino»

Olha, mas fazem faltam

 

      «Stela é a imagem do pensamento pascaliano, expressamente citado, de que Jesus Cristo (e o narrador comenta: “E existir ou não existir não tem importância nenhuma. Não existir é talvez a maior prova da sua divindade”)» (Entre Fialho e Nemésio: estudos de literatura portuguesa contemporânea, Vol. 1, Óscar Lopes. Lisboa: INCM, 1987, p. 365).

      E também diria bem se ali estivesse pascalino. O dicionário da Porto Editora é que não regista nenhum. Oh! E, contudo, acolhe pascalina, a «máquina de calcular, da invenção de Pascal, físico e matemático francês, 1623-1662».

 

[Texto 15 058]

Léxico: «palmiê»

Só por um dia

 

      Em 1994 (ah, a década de 90...), já Fernando Gabriel Vicêncio, no romance Um Sótão no Verão, punha «senhoras honestas que entravam na secção de pastelaria para comerem um palmiê recheado e beberem um chazinho», mas os nossos dicionários, a abarrotarem de robôs, capôs, bistrôs, complôs, champôs, tabliês e outros que tais, só acolhem a palavra francesa. Claro que estranharíamos, e muito, se faltassem incongruências: no dicionário da Porto Editora, capô remete logo para capot, e em alguns casos não se regista — não que eu tenha pena, mas a uniformidade, senhores! — o termo francês. Critério?

      Tudo isto porque ontem, véspera do Dia Internacional Sem Dieta, comi um palmiê integral (ou com corante, que é como a indústria mentirosa faz?), o meu bolo preferido, e era precisamente esta a grafia que se podia ler na etiqueta. Uma boa experiência seria, só por um dia, pôr os linguistas a fazer reposição nos supermercados e levar os repositores para as editoras e para as universidades. Uma espécie de Saturnais, é isso.

 

[Texto 15 057]

Léxico: «em bom rigor»

No sítio errado

 

      Ontem de manhã, na Antena 1, estavam (Ricardo Soares?) a entrevistar João Ribeiro de Almeida, presidente do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, e, pois bem, o locutor usou quatro vezes, em escassos minutos, a expressão em (bom) rigor, e apenas uma vez com propriedade. Novo bordão. (A propósito, em bom rigor só aparece num dicionário bilingue da Porto Editora. Honestly...)

 

[Texto 15 056]

Sobre «ambu», de novo

Basta comparar

 

      Se fosse brasileiro, no blogue, em letras garrafais, ler-se-ia: «O PROFESSOR RESPONDE». Ou «EXPLICA». Explico mais uma vez, ora essa: se ambu® estivesse correcto — que nunca podia estar, pois é nome comum —, então gilete e muitas outras que registas, Porto Editora, estariam erradas, por falta do apendículo. É absurdo.

 

[Texto 15 055]

Requisição civil

Trapalhices

 

      E a propósito do Chega: «O presidente do Chega afirmou esta segunda-feira, em Faro, que o Governo não faria uma expropriação como a do empreendimento Zmar no concelho de Odemira (Beja) se fosse na zona urbana de Lisboa» («Expropriação como a do Zmar não aconteceria se fosse em Lisboa, diz André Ventura», Rádio Renascença, 3.05.2021, 22h31).

      Para alguém formado em Direito, não é mau, é para lá de péssimo. Então André Ventura confunde, ou finge confundir, o que é mais condenável, requisição civil com expropriação? O dicionário da Porto Editora define assim requisição civil: «conjunto de medidas, com carácter excepcional, definidas pelo Governo com o objectivo de assegurar o funcionamento regular de serviços públicos ou de sectores considerados fundamentais, numa situação de greve». Falta concretizar isto minimamente. Não sei se ainda é o Decreto-Lei n.º 637/74 que regula a requisição civil. Se for, o que determina é que a «requisição civil tem carácter excepcional, podendo ter por objecto a prestação de serviços, individual ou colectiva, a cedência de bens móveis ou semoventes, a utilização temporária de quaisquer bens, os serviços públicos e as empresas públicas de economia mista ou privadas».

      Se pudermos — qual o obstáculo? —, devemos definir tudo o mais rigorosamente possível, e até dando exemplos, boa prática que encontramos logo nos primeiros dicionários da língua.

 

[Texto 15 054]

Vamos inventar qualquer coisa (parva)

C, Chega

 

      «Em 18 de setembro, a proposta foi aprovada pelo parlamento, com os votos contra de BE, PCP, CDS-PP, PEV, IL, CH e deputada Joacine Katar Moreira, a abstenção de PSD e deputada Cristina Rodrigues, e os votos a favor de PS e PAN» («Aprovado arrendamento forçado de terras em “situações de inércia dos proprietários”», Rádio Renascença, 30.04.2021, 14h25).

      Só com uma letra, nunca deixa de ser equívoco — mas inventar isto? É a nossa Confederação Helvética. Entretanto, um problema semelhante foi resolvido, quando o antigo jornal i passou a chamar-se Inevitável. Melhorou — o título, porque há muito que o não leio. A mudança era inevitável, e agora passou a ser citável.

 

[Texto 15 053]

Léxico: «aeroalergénio | aeroalérgeno»

Quando é preciso, não os encontramos

 

      «Esta observação é consistente e prova o conceito da competência na função de filtro das máscaras impedindo o acesso de aeroalergenios às vias aéreas» («Máscaras – um legado pós-pandémico», Bernardo Mateiro Gomes, André Moreira e David Peres, Público, 3.05.2021, 18h00).

 

[Texto 15 052]