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Linguagista

Léxico: «relatoria»

Diria que não

 

      «Nos últimos dias, Carla Zambelli (PSL), deputada bolsonarista, tentou por via judicial impedir que Calheiros assumisse a relatoria, sem sucesso» («CPI. As três letrinhas que aterrorizam Bolsonaro», João Almeida Moreira, Diário de Notícias, 3.05.2021, p. 22).

      «Queria pesquisar gelataria, reitoria, relator, relatório, senatoria, zeladoria?», pergunta a Porto Editora. (Não, de «bolsonarista» não precisamos — como também não precisávamos de «passista», mas nunca escutam os nossos desejos. Veremos se alguma vez precisaremos de «costista». Diria que não.)

 

[Texto 15 064]

Léxico: «merluza | merlúcio»

Inacabável

 

      «Voltando à carta, Olivier reforça que neste novo Yakuza houve uma grande preocupação na vertente dos pratos quentes, “a pensar nos clientes que não gostam do cru”. “Criámos a pata de caranguejo grelhada com molho (45 euros), o lombo de merluza no miso (42), vieiras e cogumelos (21), o lombo spicy teriyaki (28), temos uma salada de lavagante (32). Há uma enorme variedade”, refere como alguns exemplos» («Yakuza Lisboa reinventado. O japonês da marca Olivier que não é só para fãs de sushi», Nuno Fernandes, Diário de Notícias, 3.05.2021, p. 30).

      Ocorre três vezes no artigo, mas numa delas a grafia está errada — mais um bom motivo para a Porto Editora o dicionarizar. Está em vários dicionários, e em nenhum se diz que é castelhano. Vem desta língua, mas é também nosso.

 

[Texto 15 063]

Léxico: «sétuplo» e o resto

Mais um problema

 

      «Uma grávida no Mali, de 25 anos, é mãe de nove gémeos. É um caso raro de sucesso e o primeiro caso de nove recém-nascidos em que todos sobreviveram ao término da gravidez» («Mulher dá à luz nove gémeos. Os bebés “estão muito bem”», Rádio Renascença, 5.05.2021, 18h45).

      Então, vejamos nos dicionários. Começa em bigémeo, mas parece que é só termo da Botânica; saltamos logo para trigémeo, quadrigémeo e nada mais. Quadrigémeo, ou quádruplo, quíntuplo, sêxtuplo, sétuplo, óctuplo, nónuplo, décuplo. O pior é que, para cada um deles (e dos que faltam, claro: undécuplo, etc., mas quando falamos do ser humano talvez seja dispensável), no caso do dicionário da Porto Editora, falta esta acepção. A redacção mais clara será algo como isto: «Cada um dos X irmãos nascidos do mesmo parto.» Cada um dos quatro, dos cinco, dos seis, etc. Quanto a sétuplo, a Porto Editora nem sequer o acolhe.

 

[Texto 15 062]

Léxico: «conversacionalista»

Falar é fácil

 

      «Nesta secção, focar-se-á, em primeiro lugar, o contributo dos conversacionalistas norte-americanos para a análise dos atos de fala sequenciais, em interações reais, e, seguidamente, abordar-se-ão os contributos desenvolvidos no âmbito da análise da coerência pragmático-funcional do discurso/texto, com particular relevo para a Escola de Genève (Roulet et al., 1985)» (Pragmática: Uma introdução, Ana Cristina Macário Lopes. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2018, p. 155).

      Do inglês, decerto, mas que propõem, quando o termo é usado em textos em língua portuguesa e não lhe vejo alternativa?

 

[Texto 15 061]

Definição: «lobo-ibérico»

Falta a pelagem

 

      E também quanto ao lobo-ibérico a Porto Editora omite uma característica importante: «Mais concretamente o lobo ibérico, que recebe este nome por ser uma subespécie que habita a Península Ibérica, distingue-se dos outros lobos por ser mais pequeno e com uma pelagem amarelo-acastanhada. Em Portugal está em perigo e a paisagem é assim: a convenção de Berna diz que se trata de uma espécie estritamente protegida; a diretiva dos habitats considera-o uma espécie prioritária; e o CITES como uma espécie potencialmente ameaçada» («Paredes de Coura “território do lobo” – como preservar uma espécie ameaçada e o desafio de convencer agricultores e produtores de gado», Miguel Midões, TSF, 4.05.2021, 15h01). A Porto Editora apenas diz que é a «subespécie de lobo endémica da Península Ibérica, onde está presente sobretudo nas regiões setentrionais, que se caracteriza pelo porte esguio e ligeiro».

 

[Texto 15 060]

Definição: «bravio»

Faltam os cornos

 

      «A ciência de Dário Gonçalves também não permite explicar muito bem o que faz destas cabras animais assim tão especiais, para “quem não perceber, são todas iguais”. A cabra bravia, no entanto, pode distinguir-se com pistas simples: “São pequeninas, têm cornos, pelo curto e cor escura”» («As cabras mais famosas do país», Dora Pires, TSF, 4.05.2021, 7h31).

      Quem perceberá mais de cabras, o cabreiro ou a Porto Editora? Aceitam-se apostas. Ná, não vale a pena. A Porto Editora não refere os cornos: «diz-se de raça caprina portuguesa, oriunda das regiões do Minho e de Trás-os-Montes, cujos espécimes se caracterizam por terem estatura mediana ou pequena, membros curtos e finos e pelagem curta de coloração variável, geralmente castanha ou arruivada, sendo criada sobretudo para consumo da carne».

 

[Texto 15 059]