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Linguagista

Léxico: «habeas corpus | redondo»

Largas centenas de milhares

 

      «O Tribunal de Sintra aceitou um pedido de libertação imediata (habeas corpus) de uma mulher a quem as autoridades de saúde obrigaram a ficar 14 dias em isolamento profilático em casa, depois de regressar do Brasil» («Juiz considera ilegal obrigar viajantes do Brasil a isolamento», Isaura Almeida, Diário de Notícias, 10.05.2021, p. 32).

      O quê, em itálico num jornal e em redondo (acepção, entre várias do termo, que te faltam) no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora? Não pode ser. Não devia ser. E não só. Vejamos a definição: «garantia constitucional que consagra o direito de alguém ser imediatamente presente a um juiz ou tribunal em caso de suspeita sobre a ilegalidade da privação da sua liberdade, seja ela por detenção ou por prisão [instituição inglesa que remonta à Magna Carta (1215)]». Qual é o semianalfabeto — centenas de milhares, deixemo-nos de enganos e mentiras — que não vai interpretar que é instituto apenas respeitante ao Reino Unido? À Inglaterra, seguindo à letra a definição.

 

[Texto 15 084]

Léxico: «sequóia-vermelha»

Uma coisa assim

 

      «O baque soou com estrondo audível a dezenas de quilómetros nas entranhas da floresta de coníferas da serra Nevada, na Califórnia. Em 1908, a árvore de 60 toneladas rendeu ao solo os seus dois milénios de vida. Por mais de 50 anos, depois de despojado da casca por madeireiros da década de 1850, o gigante do mundo vegetal manteve a prumo os seus mais de 100 metros de altura. O exemplar de Sequoia sempervirens, comummente, conhecida como sequoia-vermelha, não caia [sic] anónimo, tinha nome: “Mãe de todas as árvores”» («“Mãe de todas as árvores”, a sequoia que viajou dos Estados Unidos para a Europa», Jorge Andrade, Diário de Notícias, 10.05.2021, p. 12).

      O dicionário da Porto Editora só tem a sequóia-gigante (Sequoiadendron giganteum), do que outros dicionários não se podem gabar. Mas há sempre um erro, pois na nota etimológica está assim: «Do inglês sequóia, “idem”, de See-Quayah, antropónimo, chefe indígena». Em inglês é sequoia, e o antropónimo, segundo o Etymonline English Dictionary, é Sequoya. Para Jorge Andrade — que tem de aprender a pontuar correctamente com a máxima urgência —, é Sequoyah.

 

[Texto 15 083]

Léxico: «nervoseira»

Várias mortes e dez anos depois

 

      «Na véspera, sentira-se o burburinho de uma corrida à casa de banho: “Pensava-se nos riscos...”, recorda António Gervásio, para ilustrar a nervoseira que se abateu sobre aqueles oito homens que se precipitam para dentro do automóvel (António Gervásio, “Histórias da Clandestinidade”). O Chrysler galga o túnel de acesso ao pátio raspando num dos postos de vigilância e dispara na direção do portão do Forte de Caxias ao som dos tiros (que vão ficando cada vez mais distantes)» («Júlio Fogaça. O PCP e a homossexualidade», Adelino Cunha, Expresso, 9.05.2021, 19h16).

      «Queria pesquisar nevoeira?», pergunta a Porto Editora. Mas nevoeira é uma névoa muito densa. Já em 2012 (!) aqui a tinha proposto, para o que citei um excerto de uma crónica de Vasco Pulido Valente.

 

 [Texto 15 082]

Léxico: «cientista-chefe»

Dedos cruzados

 

      «A pediatra e investigadora indiana Soumya Swaminathan, cientista-chefe da OMS, alertou este sábado, numa entrevista à AFP, que “as características epidemiológicas registadas na Índia indicam que esta é uma variante de disseminação extremamente rápida”» («Nova variante está a acelerar o colapso na Índia, diz cientista-chefe da OMS», Diário de Notícias, 8.05.2021, 23h29).

      Porque gostamos muitooooooo de chefes (dedos cruzados), deixamos aqui mais um para alargar o dicionário.

 

[Texto 15 081]

Plural majestático

O que não é

 

      «“O André Ventura não fugirá à Justiça.” André Ventura e o uso adequado do plural majestático» («O dia do julgamento», Rui Gustavo, Expresso Curto, 10.05.2021).

      Rui Gustavo, a lição está muito mal estudada. Vamos lá perder uns minutos e ensinar-lhe o que é o plural majestático: «Quando os pronomes nós e vós são empregados por eu e tu (plural majestático), embora o verbo venha no plural, os adjetivos e particípios ficam no singular, concordando com a idéia que aqueles pronomes expressam» (Estudos de Gramática e Literatura, Enéas Martins de Barros. São Paulo: Editora Atlas, 1988, p. 289). Para a próxima, já sabe, mas foi imperdoável, tanto mais que encontra a definição (a precisar de mais clareza e exemplos) nos dicionários. Mais cuidado, mais diligência.

 

[Texto 15 080]

Léxico: «peixe-navalha»

Vai tu

 

        «Os peixes-navalha [Aeoliscus strigatus] são uma espécie mesmo estranha que nada sempre na vertical com a cabeça para baixo. E sabes porquê? No aquário Sea Life Porto ficas a saber que estão sempre a olhar para o fundo do mar à procura de alimento» («Peixes que nadam com a cabeça para baixo», Notícias Magazine, 9.05.2021, p. 33).

      Vai lá ver, Porto Editora, porque eu estou a 274,6 quilómetros e tenho aqui trabalho para entregar até sexta-feira.

 

[Texto 15 079]