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Linguagista

Léxico: «peixe-futebol»

Só faltava este

 

      «O Himantolophus sagamius (conhecido vulgarmente como peixe-futebol do Pacífico) vive nas zonas mais escuras e escondidas das profundezas do oceano, por isso é extremamente raro conseguir pôr o olho em algum. E foi isso mesmo que aconteceu em Newport Beach, no estado norte-americano da Califórnia. [...] A espécie tornou-se mundialmente reconhecida depois de ter aparecido no popular filme da Pixar “À Procura de Nemo” (quem não se lembra daquele peixe assustador de que Marlin e Dory têm de fugir?). Tal como representado no filme, o peixe-futebol aproveita-se da sua “lâmpada” bioluminescente para atrair alimento, como outros peixes, lulas e crustáceos» («Uma descoberta raríssima. Peixe-futebol dá à costa em praia da Califórnia», Rita Carvalho Pereira, TSF, 12.05.2021, 13h26).

 

[Texto 15 090]

Léxico: «vietcongue»

Abunda

 

      «— Espera aí: decretaste que se os mandassem combater contra os Vietcongues iriam quase todos. E os que recusam, que fogem?» (Quatro Paredes Nuas, Augusto Abelaira. Lisboa: Livraria Bertrand, 1972, p. 156).

      Como é que não está no dicionário da Porto Editora, se abunda na imprensa e na literatura? Neste preciso momento, estou a rever um livro em que aparece.

 

[Texto 15 089]

Definição: «hibridação»

Ora nem de propósito

 

      «A investigadora conta que inicialmente estas duas espécies viviam em partes distintas da ilha: a Schistometopum thomense habitava as partes mais secas do Norte e a Schistometopum ephele as zonas mais húmidas do Sul. Mas, agora, já se encontraram no Centro da ilha e a equipa encontrou provas genéticas de reprodução cruzada entre elas (portanto, de hibridação). “Este é um padrão comum quando espécies próximas se encontram na natureza e, claro, pode também acontecer de forma artificial”, indica Rayna Bell, que considera mesmo que esta hibridação pode ajudar a explicar a confusão sobre o número de espécies nos últimos 150 anos» («A incrível saga de dois anfíbios sem membros em São Tomé», Teresa Sofia Serafim, Público, 10.05.2021, 16h50).

      Isso mesmo, o que me leva a crer que a definição de hibridação no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora pode induzir em erro o leitor: «BIOLOGIA produção de híbridos, animais ou vegetais, resultantes do cruzamento de espécies distintas; hibridização». Não poderá levar a crer-se, pelo uso do termo «produção», que é somente resultado da intervenção do Homem? (Ah, sim, não tardará e temos aí vozes contra este uso da palavra «homem» em sentido universal, para significar TODOS os homens e mulheres.)

 

[Texto 15 088]

O hífen em locuções — caos e arbítrio

Sinal de esperança ou mero lapso?

 

      «Uma língua, qualquer língua, possui um léxico tanto mais extenso e rico quanto maiores forem as exigências que se lhe apresentam e a pluralidade de contextos e situações em que tiver de ser usada. Uma língua apenas de âmbito familiar e do dia-a-dia possuirá seguramente um vocabulário mais reduzido e pouco diversificado do que uma língua que, além de falada em diferentes geografias, é usada nos contextos mais diversos – formais e informais, orais e escritos, gerais e especializados, oficiais e legislativos, educativos, científicos, tecnológicos, multilingues, multiculturais» («A língua portuguesa e a UE», Margarita Correia, Diário de Notícias, 10.05.2021, p. 28).

      Ah, como isto é curioso e como é bom estar vivo em 2021 para o ver: Margarita Correia é professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa, e, usando, sabe-se lá com que convicção, as regras do Acordo Ortográfico de 1990, escreve «dia-a-dia». Isso não contraria frontalmente o que estatui a Base XV, n.º 6, do Acordo Ortográfico de 1990? Ah, sim, eu — e não sou o único — sou defensor de que a diferenciação gráfica, pelo uso dos hífenes, devia continuar a fazer-se. Afirmei-o aqui, em 2015, a propósito de pé-de-galinha/pé de galinha. Será a Professora Margarita Correia defensora do mesmo? Nada mudou; pelo contrário, tem vindo a alastrar o caos na ortografia do português. Continuar a fingir que o problema não existe ou que se resolverá com o tempo (com a morte do último português sensato que acha que isto foi um verdadeiro atentado à língua) não ajudará em nada. Só há uma coisa que se vai consolidando: o caos.

 

[Texto 15 087]

Importação de palavras

Felizmente, não

 

      «Quanto mais as línguas crescem, mais mestiças se tornam – é inevitável. Foi mestiço o latim; são mestiças grandes línguas como o inglês, o espanhol, o francês, o português; a extensão dos seus vocabulários faz-se também por importação de palavras de outras línguas, nestas disponíveis para denominar conceitos que são novos para a língua recetora. A importação de palavras não é, por si só, uma desvantagem, mas carece de observação, análise e registo sistemáticos, processos que por aqui se confundem frequentemente com remoques puristas e prescrições pontuais, tantas vezes pouco fundamentadas» («A língua portuguesa e a UE», Margarita Correia, Diário de Notícias, 10.05.2021, p. 28).

      Carece desse trabalho, decerto — mas é maioritariamente um processo natural, espontâneo, dos falantes. E ainda bem que assim é, porque esperar pela chancela da academia era capaz de atrasar um pouco o processo.

 

[Texto 15 086]

Enxugar, secar, enxambrar

Mas alguma coisa mudou?

 

      «O trabalho da raia, de que me confesso fã incondicional, e que curávamos de pelo menos três formas diferentes – enxambrada, ao sol, e em salmoura forte – tinha um cheiro nauseabundo, a ponto de se fazer ao largo, para evitar isso e as moscas» («Fiel ao Fiel, sempre!», Fernando Melo, Diário de Notícias, 10.05.2021, p. 30). No dicionário da Porto Editora, diz-se que enxambrar é «1. secar incompletamente; 2. enxugar à sombra; 3. humedecer (um tecido) o suficiente para se poder brunir». Será assim? Correia de Lacerda, no seu Novo Dicionário de Sinónimos, escreve: «Enxuga-se o que está molhado externa e accidentalmente. Secca-se o que tem humidade propria, ou está penetrado della. Enxugam-se as lagrimas de que está banhado o rosto. Secca-se o madeiro verde, que ainda conserva a natural humidade. Enxambrar é pôr a roupa a seccar tanto quanto baste para se poder engomar, ou passar a ferro; é enxugar algum tanto, sem que chegue a seccar

 

[Texto 15 085]