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Linguagista

Cabília e cabila

Assim é que é

 

      «O movimento para a autodeterminação da Kabylia e de Anavad (Governo Provisório da Kabylia no exílio – MAK) viu no passado 20 de abril a celebração dos 21 anos do início da Primavera Amazigh (berbere para os menos avisados), data em que em 1980 viu a contestação e a raiva sair à rua pela proibição, a partir de Argel, da realização de uma conferência sobre poesia kabyla ancestral em Tizi-Ouzou, a capital desta província argelina contestatária e situada no Nordeste da Argélia, com acesso ao Mediterrâneo e povoada por cerca de 12 milhões de habitantes, sendo que dois milhões vivem em França e dois milhões em Argel, a capital da Argélia» («Ferhat Mehenni. A abrilada kabyla», Raúl M. Braga Pires, Diário de Notícias, 17.05.2021, p. 22).

      Uma vez que o autor é politólogo e arabista, era de esperar que soubesse que em português se escreve Cabília e cabila. Por vezes, nada como ler jornais para ficarmos a saber ainda menos. E se opta (ou é obrigado) por escrever segundo as regras do AO90, não devia conhecê-las minimamente? Não é o que se vê.

 

[Texto 15 117]

Léxico: «batiscafo»

Então e o francês?

 

      «A 23 de janeiro de 1960, os mergulhadores Don Walsh e Jacques Piccard, a bordo do batiscafo Trieste, desceram à depressão Challenger, o ponto mais baixo da superfície terrestre, com os seus 10 923 metros de profundidade» («Expedição Challenger. A viagem rumo ao abismo que durou quatro anos», Jorge Andrade, Diário de Notícias, 17.05.2021, p. 13).

      Não tens razão, Porto Editora, também se grafa batiscafo. Mas não é só isso. Define-lo assim: «aparelho de aço, em forma de esfera, inventado por Piccard, físico suíço (1884-1962), e empregado para descer a grandes profundidades marítimas». Mas que Piccard? Como o filho, outro Piccard, deste também colaborou, é curial indicar o nome todo, Auguste Piccard. Físico, inventor, explorador. Que, na realidade, era suíço-belga. É só isto? Não: lemos na nota etimológica que vem «do grego bathýs, “profundo” +skáphos, “embarcação”», mas está errado. O nosso batiscafo/batíscafo vem do francês bathyscaphe, e este é que provém do grego bathý- + skáphos. Ah, e não é em forma de esfera. Não custa nada sermos precisos.

 

[Texto 15 116]

Frei João qualquer coisa

Something

 

      «— Vocês não devem lembrar-se dum sermão que um santo, Frei João qualquer coisa, pregou uma vez na presença de D. Miguel...» (Barranco de Cegos, Alves Redol. Lisboa: Publicações Europa-América, 1973, p. 414).

      Em inglês até podem grafar com maiúscula, Something, mas em português não é necessário, é mesmo assim, Frei João qualquer coisa. José qualquer coisa. Maria qualquer coisa.

 

[Texto 15 115]

Léxico: «microapartamento»

Para não ir mais longe

 

      «A fachada deste prédio tem 17 metros, mas a parede lateral só tem 1,65. Está identificado como o prédio mais estreito de Lisboa, mas tem grande arrumação e muita vida. Virgínia Moura vive lá há 55 anos e agora vai-se cruzando com os habitantes temporários que alugam os outros três microapartamentos de alojamento local. [...] Inês da Silva, diretora de operações da Saudade Apartments, ainda tem no telemóvel as plantas do prédio e dos apartamentos, essenciais na reabilitação dos três microlofts que a marca ali disponibiliza desde julho do ano passado» («No prédio mais estreito da cidade cada centímetro de espaço conta», Sofia Fonseca, Diário de Notícias, 17.05.2021, p. 18).

      A prova de que devia estar dicionarizado é que, não apenas a frequência de uso o justifica, como o vejo muitas vezes mal escrito — como, lá está, na versão digital do artigo.

 

[Texto 15 114]

 

Léxico: «policiesco»

Para usos variados

 

      «Sempre que Jorge Amado chegava a Lisboa, até 1974, era mobilizado o habitual dispositivo policiesco. Mas apesar disso — relembra Lyon de Castro — foi sempre possível que alguns amigos e mesmo elementos da comunicação social entrassem a bordo para o acolher e, em vários casos, para o entrevistar» (Jorge Amado: o homem e a obra: presença em Portugal, Álvaro Salema. Lisboa: Publicações Europa-América, 1982, p. 131).

      «Queria pesquisar policresto?» Não queria, pois claro, mas policresto, «que serve para usos variados», é um excelente adjectivo.

 

[Texto 15 113]

Assim se aplica o AO90

Muito mal

 

      «Já no dia 30 de abril, uma debandada em massa durante um festival religioso no norte de Israel acabou por fazer 45 mortos entre a comunidade ultra-ortodoxa» («Dois mortos após queda de bancada de sinagoga», Diário de Notícias, 17.05.2021, p. 32). E trata-se da edição em papel: a edição em linha é, à semelhança de outros jornais, simplesmente vergonhosa, tantos e tais são os erros. Alguém quer saber?

 

[Texto 15 112]