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Linguagista

Definição: «patente»

Então, alguma coisa falta

 

      «Uma patente é um direito de propriedade industrial, um contrato entre o Estado e uma entidade ou uma pessoa que faz a invenção. [...] A patente dá à entidade ou pessoa o direito exclusivo de produzir e comercializar uma invenção, com uma contrapartida: ela tem de ser divulgada. É exatamente esta a razão da existência das patentes. “Porque é que o Estado, que não dá nada, quer conceder um monopólio? Porque senão estaríamos sempre reinventar a roda”, explica a especialista [Anabela Carvalho, mandatária europeia de patentes na Patentree]» («Levantamento de patentes pode levar farmacêuticas “ao segredo”. Seria “recuar anos” no conhecimento científico», Inês Rocha, Rádio Renascença, 14.05.2021, 8h00).

      Não tenho dúvidas de que esta contrapartida devia figurar na definição de patente. Seja como for, no caso do dicionário da Porto Editora, neste mesmo verbete, há pelo menos um aspecto a corrigir: diz-se que patente é o documento que garante um direito exclusivo — mas, na verdade, é, ao mesmo tempo, o documento e o próprio direito garantido. A não ser que alterem a acepção 1. nestoutro sentido: «documento oficial que concede um direito ou privilégio».

 

[Texto 15 123]

 

Léxico: «subciclo»

Lido e ouvido

 

      «Ainda assim, o Presidente faz uma análise do ciclo político, remetendo uma remodelação para depois das eleições autárquicas: “Estamos a caminho de metade da legislatura, há um ano de eleições autárquicas, a experiência mostra que os primeiros-ministros fazem avaliações, as eleições autárquicas são uma espécie de subciclo dentro de um ciclo de quatro e o que aconteceu em legislaturas anteriores é que os primeiros-ministros sentem num determinado momento a necessidade de refrescar o governo.”» («Marcelo “confiante”, mas insatisfeito e à espera de um “subciclo”», Eunice Lourenço, Rádio Renascença, 14.05.2021, 00h43).

 

[Texto 15 122]

Assim se aplica o AO90

De mal a pior

 

      «Porque é que, em Portugal, políticos com elevadas responsabilidades culparam, declarada ou subrepticiamente, os Portugueses pela desastrosa evolução da pandemia no trimestre de dezembro de 2020 a fevereiro de 2021?» («Covid-19: porque é que...?», António Ferreira, Observador, 12.05.2021, 00h06).

      O texto do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 é omisso em relação a isto, mas é logo, como já nos habituaram, para a pior opção que os falantes propendem. E é o autor médico e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, agora imagine-se o Sr. Adérito ali da frutaria. Nada recomenda a forma aglutinada, e um mínimo de reflexão sobre a língua permitiria a qualquer um chegar a esta conclusão.

 

[Texto 15 121]

Léxico: «kardex»

Já por aqui passou

 

      «Mais à frente, o mesmo serviço, mas em Kardex verticais. “São os medicamentos para cada doente internado. Cada caixa tem a sua identificação, serviço, cama e a dose adequada e tudo tem de ser confirmado”» («Preparar vacinas em hospitais dá para vacinar mais com menos doses», Ana Mafalda Inácio, Diário de Notícias, 17.05.2021, p. 11).

      Também é usado, por derivação imprópria, como nome comum, como já tive oportunidade de aqui dizer. Não podia é ser ajoujado com o nefando ®, como estava ambu e, com todos os demónios!, ainda estão outros, como masonite. Não, não, não, isso está errado. Num dicionário, o único lugar adequado para essas menções é na etimologia. Ou querem transformar os dicionários em catálogos de marcas?

 

[Texto 15 120]

Definição: «selo branco | contracunho»

Posso fazer um desenho

 

      A tradutora verteu raised seal por «máquina de selar», mas está enganada. Máquina... Traduz-se por selo branco, que a Porto Editora define assim: «carimbo sem tinta, que deixa uma marca em relevo no documento que autentica, marca em relevo produzida por este carimbo». Está bem, está mal? Já veremos. Talvez se devesse falar neste ponto igualmente do sinete, que é muito semelhante, mas constituído somente por um cunho montado num cabo. É aqui que bate o ponto: o selo branco é constituído por um cunho e um contracunho, montados numa prensa, o que não é mencionado na definição da Porto Editora. Mas não apenas isso, pois também regista contracunho, que define desta maneira: «impressão gravada em sentido contrário ao do cunho». Nunca falta o que corrigir.

 

[Texto 15 119]

Léxico: «citostático»

Venha de lá ele

 

      «O processo é feito na antecâmara no corredor à nossa frente. É ali que se prepararam todos os medicamentos injetáveis para administrar aos doentes internados, em ambulatório e, no caso específico das vacinas contra a covid-19, aos profissionais. No momento desta visita guiada, estavam a ser preparados medicamentos citostáticos (doses de quimioterapia)» («Preparar vacinas em hospitais dá para vacinar mais com menos doses», Ana Mafalda Inácio, Diário de Notícias, 17.05.2021, p. 11).

      (E la pobrecita de la merluza, presente em todos os dicionários, tem a entrada interdita no dicionário da Porto Editora. Ora esta...)

 

[Texto 15 118]