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Linguagista

Léxico: «norte-ocidental»

Isso não é nosso

 

      «Estende-se, ao que sabemos, desde a vertente norte-ocidental da serra da Estrela, onde está representado pelo povoado do Cabeço do Crasto de São Romão (Seia), até à margem norte do rio Vouga, mais concretamente ao povoado da Senhora da Guia, em Baiões (São Pedro do Sul), com outras estruturas de habitat identificadas na região de Viseu — povoados de Santa Luzia e Senhora do Crasto» (História de Portugal: Antes de Portugal, José Mattoso. Lisboa: Editorial Estampa, 1993, p. 92).

      Sim, norte-ocidental, que a Porto Editora não regista — pois afirma, e creio que são os únicos na nossa galáxia, que se diz «norocidental». Mas noroccidental não é castelhano?

 

[Texto 15 160]

Léxico: «muriqui | braquiador»

Gente vagarosa

 

      «Além de excelente [o muriqui, o maior mamífero endémico do Brasil e o maior primata das Américas] braquiador, possui uma cauda extremamente preênsil e musculosa» (Primatas do Brasil, Paulo Auricchio. São Paulo: Terra Brasilis, 1995, p. 143).

      O maior, mas não se vê daqui, quer dizer, a Porto Editora não vê: «Macaco (Brachyteles arachnoides) da família dos cibídeos, endêmico da Mata Atlântica das regiões Nordeste (BA) e Sudeste (MG, ES, RJ, SP) do Brasil, de cabeça redonda, membros longos, cauda preênsil, mais longa que o corpo, e espessa pelagem de coloração amarelada (é o maior primata das Américas, podendo chegar a 63 cm de comprimento); buriqui, buriquim, mariquim, miriqui, mono, muriquina» (in Dicionário Michaelis). «Queria pesquisar mujique, musiquim, ourique, turqui

 

 

[Texto 15 159]

Léxico: «vesaliano»

Isso é tomar partido

 

      Então a Porto Editora defende os galenistas e ignora os vesalianos? Isso não é tomar partido e deturpar a História? Ah, mas não desconhece quem foi Vesálio (embora se obstine em deixar o nosso Ibn Mucana no limbo), pois um texto de apoio diz: «Cientista flamengo da época do Renascimento nascido em 1514 e falecido em 1564. Revolucionou o estudo da Biologia e a prática da Medicina pelas suas descrições pormenorizadas da anatomia do corpo humano. A sua obra De corporis humani fabrica libri septem (1543), geralmente conhecida simplesmente como Fabrica, teve uma influência enorme e é considerada o primeiro tratado de anatomia humana.» Revolucionou o estudo da Biologia? Não sei se se pode dizer isso. Sei que é o pai da anatomia moderna.

 

[Texto 15 158]

Léxico: «benção»

Forma popular, sim

 

      «Minha mãe, depois que a parteira me limpou, quase já esquecida das dores, como todas as mães, tomou-me nos braços, beijou-me, fez sobre mim o sinal da Cruz, pedido ao Céu bênções largas para o seu menino, Luís — a primeira vez que o nome, hipótese, se fez realidade, nomeando-me e identificando-me, para sempre» (Luís de Camões, Zacarias Nascimento. Lisboa: Didáctica Editora, 2007, p. 3).

      Acontece muitas vezes: o autor quase acertava. Para estar correcto, teria de tirar o acento circunflexo. Infelizmente, é informação que não vemos em muitos dicionários e vocabulários. «Bênção / bênçãos tem também a forma popular benção / benções, com acentuação na última sílaba» (Prontuário Ortográfico Moderno, Manuela Parreira e ‎J. Manuel de Castro Pinto. Porto: Edições ASA, 1985, p. 161). O VOLP da Academia Brasileira de Letras acolhe esta variante de génese popular, e, o que é mais e falta no dicionário da Porto Editora, os plurais.

 

[Texto 15 157]

Tradução: «heavens»

Também fica dito

 

      Nas traduções, e isto vê-se cada vez mais, como uma praga, põem as personagens a exclamarem «oh, céus». Gostava de perguntar a esses tradutores, que vão sendo maioria, se já alguma vez ouviram um português a falar assim. Devem pertencer às novas gerações, sempre de fones a cancelar o mundo exterior. Mais e pior: isto está a atingir tais proporções, que as personagens dizem «Oh, God» e eles já traduzem por «Oh, céus». Isto é normal? E não lhes cai o céu em cima. Dava-lhes tantas chapadas, etc.

 

[Texto 15 156]