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Linguagista

Léxico: «raleira»

A que mais nos preocupa

 

      «E quando tudo estiver terminado, e depois das raleiras a que não pudemos poupá-la, das mazelas, das fadigas, dos explosivos ou azedos humores, do pouco e do muito que ela, no momento certo, com um agudíssimo sentido da decisão avisada, saberá resolver, depois de findas as semanas em que os três temperamentais portugueses dela dependerão, assim lhe disturbando a cadência dos dias, arredando-a das tarefas, da família, dos lazeres, ela, esta Elena que nos falará muitas vezes do seu autodomínio, do autodomínio dos Russos, de uma disciplina nas exteriorizações que talvez seja o seu épico mas frágil combate, dando-me o exemplo de num repente passar da vigília ao sono e sair retemperada desses minutos bem dormidos, para tal bastando apoiar a cabeça na mão espalmada, esta Elena investigadora, mãe de família, dona de casa, sempre numa roda-viva que ainda lhe dá tempo para o deleite da contemplação, esta Elena desabafará, rendendo-se a uma emotivadade inultimente [sic] refreada» (URSS mal amada, bem amada, Fernando Namora. Lisboa: Bertrand Editora, 1986, p. 56).

      Pois é, Porto Editora, não tens esta raleira, e é logo, para grande azar, a que mais nos preocupa. (Trata-se, ali acima, de Elena Wolf [1927-1989], filóloga, investigadora, professora na Lomonossov de Moscovo, autora de um Dicionário Inverso da Língua. Talvez merecesse mais estar nas nossas enciclopédias do que outros que lá encontramos.)

 

[Texto 15 168]

Léxico: «protestatário | refilanço»

Porto Editora, deixaste cair isto

 

      «Ao longo destes anos, têm-se-me deparado russos amargamente protestatários. Isso não obsta a que, nas aparências do comportamento cívico, nos dêem a ideia de que para eles as vias do protesto não devem confundir-se com o refilanço epidérmico e com o folclorismo do gesto que a nada conduzem» (URSS mal amada, bem amada, Fernando Namora. Lisboa: Bertrand Editora, 1986, p. 30).

 

[Texto 15 166]

Revisão, precisa-se

Vejam lá isso melhor

 

      «Desaparecido nesta semana, há três dias, John William Warner, o III, faleceu de ataque cardíaco na sua casa, aos 94 anos de idade. [...] O vice-presidente feito presidente afeiçoar-se-ia à operacionalidade e independência de Warren, indicando-o para responsável máximo pelas comemorações do bicentenário dos Estados Unidos da América, em 1976, eventualmente o cargo mais significativo que desempenharia na vida pública. [...] Mark Warrer, seu homónimo de sobrenome e que lhe sucederia em 2008, disputou uma eleição com ele 12 anos antes e a coincidência de ambos se chamarem Warren provocaria confusão e humor» («John Warner (1927-2021). O sexto marido de Elizabeth Taylor», Sebastião Bugalho, Diário de Notícias, 29.05.2021, p. 30). Acham mesmo que a revisão não serve para nada?

 

 

[Texto 15 165]

Os Hereros e os jornalistas

Não digam disparates

 

      «Os colonos alemães mataram dezenas de milhares de herero e nama em massacres entre 1904 e 1908, considerados por historiadores como o primeiro genocídio do século XX» («Alemanha admite genocídio na Namíbia e vai pagar mais mil milhões em ajudas», Rádio Renascença, 28.05.2021, 8h59).

      Por qualquer razão que não nos compete indagar, boa parte dos nossos jornalistas recusam-se a pensar. Limitam-se a reproduzir, ainda que se afigure, logo à primeira vista, um disparate. Felizmente, há sempre quem saiba: «A sul e a oriente dos Umbundos havia vários outros grupos tribais mais pequenos, entre eles os Lunda-Quiocos, os Ganguelas, os Hereros, os Nhaneca-Humbes, os Ambos e os Xindongas, alguns ocupando parte do actual Sudoeste Africano (Namíbia)» (História de Portugal, Vol. 3, António de Oliveira Marques. Lisboa: Edições Ágora, 1972, p. 161).

 

[Texto 15 164]