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Linguagista

Léxico: «vice»

Não está

 

      «André Ventura foi reeleito para a liderança do Chega com 79% dos votos dos congressitas [sic] que participaram na III reunião magna do partido, que terminou ontem em Coimbra. Ventura, cuja lista foi eleita à primeira, sem votos contra, com 29 abstenções e 36 nulos, remodelou ainda a direção, de onde saíram três vices» («André Ventura eleito com 79% zanga Rui Rio», Diário de Notícias, 31.05.2021, p. 7).

      Há muito que deixou de ser meramente elemento de formação de palavras, Porto Editora. Nem queria acreditar quando vi que não o registas. A DOC, ou o extremo cuidado, obrigou-me a verificar seis vezes em três dispositivos diferentes. Não está.

 

[Texto 15 181]

Léxico: «folívoro | folivoria»

Sem palavras

 

      Vejo que sabes o que é um animal folífago, Porto Editora. (Ao contrário ali daquele senhor calvo, com cara de céptico.) Isso mesmo: «que se nutre de folhas; filófago». Os gorilas são folífagos. Muito bem. Um passo de cada vez. Mas eu também posso dizer, se me apetecer, que o gorila é um animal folívoro — e esta palavra já tu não a registas. Como também não acolhes folivoria. Sem palavras, não vamos longe.

 

[Texto 15 180]

Sobre «archeiro»

Convida à confusão

 

      «E tais coisas têm a sua importância, mesmo que sob elas arfe o pulmão do lobo, a blandícia da raposa ou com elas se embuce a seta do archeiro» (URSS mal amada, bem amada, Fernando Namora. Lisboa: Bertrand Editora, 1986, p. 10).

      Causa-me sempre muita estranheza quando vejo esta palavra para significar, como é o caso da frase de Fernando Namora, homem armado de arco. A mim, vem-me sempre à mente que é o soldado armado de archa. Naquele sentido, o étimo é o francês archer, pelo que não precisávamos dele, salvo para propiciar confusões. Conhecem o adágio fazer do argueiro cavaleiro? Pois bem, Alexandre de Carvalho Costa, na obra Gente de Portugal: sua linguagem, seus costumes, aventa a hipótese de «argueiro» estar por «archeiro», isto é, confundir-se o peão ou infante com o cavaleiro, o que seria grande confusão. Faz sentido.

 

[Texto 15 179]

Léxico: «chave-na-mão»

Outro mistério

 

      Há décadas que andamos a deparar com isto, seja na escrita seja na oralidade, mas não nos dicionários: «Isto, Santo Deus, em 1973. Nas vésperas do festivo tu-cá-tu-lá de Nixon-Brejnev à varanda da Casa Branca, do aterrar de japoneses e americanos na Terra Prometida da Sibéria, no entanto sabendo que os dividendos serão colhidos lá para muito dentro do século XXI, da inauguração da embaixada comercial de Franco mesmo no centro de Moscovo, dos ladinos italianos a montarem fábricas chaves-na-mão, das armas da paz de Samuel Pisar, homem de negócios sem alergias, a quem só Raymon[d] Aron lançava anátemas» (URSS mal amada, bem amada, Fernando Namora. Lisboa: Bertrand Editora, 1986, p. 13).

 

[Texto 15 177]

Léxico: «coramina»

Mas não na nossa

 

      Porto Editora, sabes dizê-lo em várias línguas, mas não na nossa: «Eis uma médica e dois enfermeiros, de modos muito expeditos. O homem está, não está morto, a verificação iniciou-se com o fonendoscópio mas também com um sonoro par de bofetadas, e vá de injecção de coramina» (URSS mal amada, bem amada, Fernando Namora. Lisboa: Bertrand Editora, 1986, p. 112).

 

[Texto 15 176]