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Linguagista

Léxico: «russo | bielorrusso»

Entre nada e quase nada

 

       «O russo é a língua eslava mais falada, pertencendo ao seu ramo oriental, juntamente com ucraniano e bielorrusso. [...] O russo escreve-se com alfabeto russo, uma variante do cirílico. Este é usado para a escrita de seis línguas eslavas (bielorrusso, búlgaro, macedónio, russo, sérvio e ucraniano), além de ter sido adotado para a grafia do mongol, quirguiz e tajique» («A propósito do Dia Mundial da Língua Russa», Margarita Correia, Diário de Notícias, 7.06.2021, p. 28).

      De bielorrusso, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, na sua versão digital, nem sequer diz que também é a língua falada na Bielorrússia. Já no que diz respeito a russo, esperava-se que dissesse mais do que «língua indo-europeia, do ramo eslavo, falada na Rússia». É o que se espera sempre que consultamos um dicionário.

 

[Texto 15 214]

 

Léxico: «calocedro» e outros

Nem um

 

      «E, mais do que isso, exibe-se um parque que manteve a sua volumetria e soube renovar os seus espaços mantendo as deliciosas manhãs, frescas e perfumadas, e um entardecer saboroso ao som do trabalho ancado do fugaz pica-pau e de uma ligeira brisa entre sobreiros, castanheiros, plátanos, medronheiros, ciprestes, abetos e outras imponentes raridades (liquidâmbar, arvore [sic] de Júpiter, criptoméria-do-japão, calocedro, sequóia gigante...)» («Um parque onde se sorvem os 150 anos desta história», Luís Octávio Costa, «Fugas»/Público, 15.05.2021, p. 12).

      É o nome comum do Calocedrus decurrens, que também responde pelos seguintes nomes comuns em Portugal: cedro-branco-da-califórnia, cedro-do-incenso ou libocedro. Nos dicionários, nada.

 

[Texto 15 213]

Léxico: «petiscada»

Andam distraídos

 

      «A petiscada seguiu nos “Bolinhos de bacalhau” (€9,50/6 unidades), de fritura escura, mas não oleosa, gordos e com bacalhau em abundância» («Bem petiscar em casa», Fortunato da Câmara, «Revista E»/Expresso, 22.01.2021, p. 82). Apenas «adjectivo feminino singular de petiscado»? Os nossos dicionaristas andam distraídos.

 

[Texto 15 212]

Definição: «âmbar-cinzento»

Erros e teorias

 

      «Um grupo de pescadores do Iémen fez uma descoberta que mudou as suas vidas. Encontraram o cadáver de um cachalote cheio de âmbar-cinzento no intestino, uma substância rara que pode valer centenas de milhares de dólares porque é muito valiosa para a indústria da perfumaria, que a utiliza para preservar os aromas. [...] O âmbar-cinzento é produzido no intestino dos cachalotes, um mamífero marinho semelhante às baleias, mas de outra família de cetáceos. É uma substância sólida, cerosa e inflamável de cor cinzenta» («Pescadores encontraram uma fortuna no intestino de um cachalote», SIC Notícias, 7.06.2021, 11h16).

      O dicionário da Porto Editora define assim âmbar-cinzento: «matéria de cheiro activo, utilizada em perfumaria, segregada por certos moluscos e extraída dos intestinos dos cachalotes, que se alimentam desses animais». Segregada por certos moluscos? Está errado. É algo vagamente parecido, mas não passa de uma teoria. Lê-se na Enciclopédia Britânica: «Ambergris is now thought to be a substance protective against intestinal irritation caused by the indigestible horny beaks of squid and cuttlefish that the sperm whale feeds upon. The whale’s intestine can accommodate only small chunks of ambergris, so larger pieces must be regurgitated.»

 

[Texto 15 211]

Confusão: cavala e sarda

A sarda é mentirosa

 

      Uma muito apelativa infografia no Público, da autoria de Célia Mendonça, começa precisamente por distinguir a cavala da sarda, e com toda a razão. «A cavala do oceano Atlântico — a Scomber colias — é muito parecida com a sarda — a Scomber scombrus — e, embora da mesma família e do mesmo género, são espécies diferentes. O estado de conservação da cavala encontra-se actualmente classificado como Pouco Preocupante» («Não tenham medo da cavala», Edgardo Pacheco, Público, 21.04.2021, 16h27).

      Pois bem, no dicionário da Porto Editora, ambos os escombrídeos, a Scomber colias e a Scomber scombrus, aparecem no verbete cavala, se bem que a Scomber scombrus apareça também no verbete sarda. Para quê esta duplicação? A pergunta é só uma: a quem serve esta confusão, esta trapalhada? A infografia de Célia Mendonça e o texto de Edgardo Pacheco mostram com toda a clareza como são espécies diferentes, e isto à vista desarmada e sem conhecimentos especiais, não é preciso ser-se biólogo ou ictiólogo.

 

[Texto 15 210]

Léxico: «baguete»

Não é pão

 

      Tive de ir a uma papelaria comprar uma baguete para um trabalho. Não digo que a Porto Editora me mandaria procurar numa padaria, mas garanto que não é exactamente uma «régua com uma ranhura longitudinal para pendurar cartazes» aquilo que trago para casa. Bem, é uma régua com uma ranhura longitudinal, mas não para pendurar cartazes: no caso, na maioria dos casos, é para prender 60 folhas de papel A4. Amplie-se a definição.

 

[Texto 15 209]