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Linguagista

Léxico: «piqueniqueiro»

É só tirar as aspas

 

      «É verdade que toda esta área, devido à sua proximidade com a capital e com uma zona urbana cada vez mais habitada por pessoas que vão e vêm todos os dias, está sujeita ainda a uma grande pressão de visitantes — tenho o privilégio de manter uma velha casa da minha família —, sobretudo durante a época estival, ficando mesmo o vasto cordão de praias e a mata repletos de banhistas e “piqueniqueiros”» («Não tenham medo da mata», José Vieira Mendes, «Fugas»/Público, 10.04.2021, p. 22).

 

[Texto 15 221]

Sobre o uso de «concelho» e «município»

Concelho ou município?

 

      De quando em quando, convém, como já vos aconselhei, dar uma olhadela às cartas dos leitores dos jornais. Neste caso, trata-se da edição do dia 1 do corrente do Público, e o leitor é Luís Vidigal, de Santarém, que pontifica sobre o uso dos termos «concelho» e «município». Leiamo-lo: «Quando se fala da principal autarquia existente, está tão vulgarizado o abuso do termo “concelho”, que se impõe uma clarificação — sobretudo quando pessoas responsáveis anunciam diariamente que X “concelhos” confinam ou desconfinam. Acontece que não há palavras inocentes ou livres de conotações ideológicas: a Constituição de 1822 instituiu a “Câmara” para garantir o “governo municipal dos concelhos” (art.º 218.º), princípio reafirmado na Carta de 1826 (art.º 133.º) e na Constituição de 1838 (art.º 130.º). Foi a Constituição republicana de 1911 que garantiu a divisão do país em “Municípios” (art.º 66.º).

      Só a famigerada Constituição de 1933 dividiu o território em “Concelhos” (art.º 124.º), fruto dum revivalismo nacionalista serôdio. O salazarismo, num saudosismo monárquico, consagrou mesmo a expressão “Paços do Concelho”. Borges Coelho identificou (Comunas ou Concelhos, 1973), um movimento “concelhio” como correia de transmissão do poder central. Felizmente, a Constituição de 1976 atirou para o caixote do lixo da História a salazarenta nomenclatura dos “Concelhos”, passando a existir em Portugal apenas “Municípios” (art.º 236.º). As tradições não são todas para venerar e os abusos de linguagem requerem correcção.»

      Bem, não precisam de verificar: a Constituição não usa mesmo o termo «concelho». Daí a falar-se em conotação ideológica é que se me afigura já lunático. Suponho que isto só possa ser ponderado em concreto, não de forma abstracta. Assim, não sei se há câmaras municipais — até daquelas que são governadas por maiorias comunistas — em cujas páginas na Internet se não use o termo «concelho» em vez de «município». Como eu vejo as coisas, nem sequer são exactamente sinónimos. Seja como for, não posso deixar de concordar que, em alguns casos, se devia ter o cuidado de não confundir. Para começar, nos dicionários. A Porto Editora define assim concelho: «subdivisão do território sob administração de um presidente da câmara e das restantes entidades autárquicas; divisão administrativa imediatamente inferior à categoria de distrito; município». Um módico de rigor devia imperar pelo menos aqui.

 

[Texto 15 220]

Léxico: «enxurro»

Mal geral

 

      «Uma primeira surpresa, só minha, que anos antes conhecera o lá-vai-um do tráfego russo nas estradas: estas, a convergirem para a capital, eram um enxurro de viaturas, ao que se avistava com predomínio de camiões» (URSS mal amada, bem amada, Fernando Namora. Lisboa: Bertrand Editora, 1986, p. 17). Não vejo este sentido figurado do vocábulo enxurro nos nossos dicionários.

 

[Texto 15 218]

Léxico: «colcoziano | sovcoziano | sovcoz»

Ainda se podem encontrar

 

      «Na Geórgia, os kolkozianos trabalham, em média, centro [sic] e trinta e cinco dias por ano nas granjas cooperativas e o resto do tempo investem-no na leira individual, nela produzindo os produtos que tiveram mais procura, desde os legumes às flores e aos pepinos» (URSS mal amada, bem amada, Fernando Namora. Lisboa: Bertrand Editora, 1986, p. 130).

      Eu não estava lá para aconselhar Fernando Namora a escrever colcoziano, como outros escritores fazem. Além de que certos autores e tradutores preferem escrever mal, só porque sim. Este falta nos nossos dicionários e, como era de prever, também sovcoziano está ausente. Também incoerente é os dicionários, como o da Porto Editora, acolherem colcoz, mas não sovcoz, termos que ainda hoje — e não é o maior argumento para os dicionarizarmos — se usam em algumas ex-repúblicas soviéticas. «Não há asilos, refúgios, casas de beneficência. Actualmente na URSS estão reformados pelo Estado e pelos colcozes (com cerca de 75% do ordenado) mais de 45 milhões de pessoas, quer dizer, uma em cada seis. Nem os operários nem os camponeses dos colcozes ou sovcozes nem os empregados têm quaisquer descontos ou pagam seguros sociais» (Viagem à União Soviética, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Cavalo de Ferro, 2017, p. 27). Como também não estava aqui para dizer que grafar estas palavras em itálico é errado.

 

[Texto 15 216]