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Linguagista

Léxico: «paroquializar | paroquialização»

Sobretudo o nome

 

      «Lisboa tornava-se então local de confluência de muitos povos. “Durante este período islâmico e o período medieval cristão até D. Manuel, em finais do século XV, houve em Lisboa uma convivência relativamente pacífica entre judeus, muçulmanos e cristãos”, repara [Joana Sousa Monteiro, directora do Museu de Lisboa]. Desde a tomada de Lisboa aos muçulmanos, em 1147, por D. Afonso Henriques e até ao final da dinastia de Avis, no século XIV, a cidade viveu grandes transformações. A urbe, que ia pouco além do Castelo, de Alfama e da baixa, foi “paroquializada”. Criaram-se 20 paróquias e o burgo transformou-se num estaleiro de obras com a construção de igrejas e cemitérios próprios» («Uma viagem ao interior da Lisboa pré-terramoto», Cristiana Faria Moreira, Público, 9.06.2021, p. 17). Mais comum é paroquialização, e também não o encontramos em nenhum dicionário. Entretanto, vão-se usando.

 

[Texto 15 229]

«Frente a»? Ná.

Se preferem

 

      Se preferem, se insistem, então vamos para um erro inequívoco: «Uma semana antes de o rapazinho chegar ao Mississípi para passar férias com os tios e os primos, um activista chamado Lamar Smith foi morto a tiro frente ao tribunal de Brookhaven tendo os suspeitos do homicídio sido detidos, mas, como sempre, libertados pouco depois» («Blues para Emmett Till», António Araújo, Diário de Notícias, 12.06.2021, p. 38).

      É claro que António Araújo não sabe, mas não temos tal locução em português. Temos outras, que chegam e sobram para as necessidades: «em frente de», «em frente a», «diante de», etc.

 

[Texto 15 228]

Proceder o seu curso?!

Nunca se sabe

 

      «Os assassinos foram absolvidos e desapareceram há muito, ainda que o caso continue ativo. O FBI decidiu reabri-lo em 2017 e, no ano passado, por ocasião do 65.º aniversário da barbárie, intensificou-se a campanha para que seja feita justiça. As investigações, ao que parece, procedem o seu curso, até agora sem resultados à vista» («Blues para Emmett Till», António Araújo, Diário de Notícias, 12.06.2021, p. 38).

      Sei lá se é lapso: não vimos já aqui gente supostamente inteligente escrever, e defender, «bramir o estandarte», entre outros disparates? Também não se pode dizer que seja erro de revisão — se os jornais não têm revisores. A desculpa é de que não há dinheiro para tal luxo.

 

[Texto 15 227]

Léxico: «transudação»

Mais específico

 

      «A autoridade nacional de medicamento informou, na sexta-feira, que a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) concluiu, após investigação, que pessoas que já tiveram síndrome de transudação capilar (CLS, em inglês) não devem ser vacinadas com a Vaxzevria, defendendo que esta doença deve ser adicionada ao folheto informativo como um novo efeito indesejável da vacina» («Tem historial de transudação capilar? Não deve tomar AstraZeneca, diz o Infarmed», R. S., Jornal de Notícias, 12.06.2021, 10h59).

      Já nem digo que queria ver a síndrome de transudação capilar no dicionário da Porto Editora. Queria, pelo menos, que transudação estivesse como no Dicionário Michaelis: «MED Passagem de líquidos plasmáticos com baixo teor de proteínas através das paredes dos vasos, decorrente do desequilíbrio das forças hidrostática e osmótica.»

 

[Texto 15 226]

Léxico: «descavilhar»

Mais uma da guerra

 

      «O certo, porém, é que tal esquema era logo esquecido: cada um saltava apenas em frente e, caindo na primeira vala, punha-se a despachar fogo de rajada ou a descavilhar granadas» (Autópsia de Um Mar de Ruínas, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 6.ª ed., 1997, p. 12).

      «Queria pesquisar desafilhar, desatilhar, desavinhar, descaminhar, descarrilhar, descavalgar, desencavilhar, encavilhar, escovilhar

 

[Texto 15 225]

Léxico: «iacuto | tungúsico»

Orgulhosamente sós (e ignorantes)

 

      «Na Sibéria, os Iacutos e os povos tungúsicos acreditam que o nariz dos animais astutos transfere a astúcia a quem o levar consigo. Por esse motivo, utilizam o focinho das raposas nas suas práticas mágicas» («Boçal e alarve», João Pedro George, Sábado, 6-12.05.2021, p. 84).

      Nos nossos dicionários é que não está nada disto. É uma espécie de orgulhosamente sós da lexicografia. Alguém quis, e ainda quer, que seja assim.

 

[Texto 15 224]