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Linguagista

Língua materna e língua-mãe

De novo, e pior

 

      «Se comparado com países como Angola, Brasil, ou Moçambique, com as suas muitas línguas nacionais, até podemos achar que Portugal é um país monolingue. Não podemos estar mais longe da realidade, porém, se pensarmos nas dezenas de línguas, especialmente de imigração, que são hoje faladas no nosso país. É certo que praticamente todos os portugueses se reveem na língua portuguesa (e o “praticamente” é sobretudo recurso retórico), consideram-na língua-mãe, língua de identidade, parte de si mesmos» («Das línguas nacionais», Margarita Correia, Diário de Notícias, 14.06.2021, p. 29).

      Será que consideram mesmo? Coitados. Se língua-mãe é a língua que deu origem a outras línguas — como, por exemplo, o latim em relação às línguas novilatinas —, que sentido tem esta afirmação? E se o trocarmos por língua materna continua a não fazer sentido: determinada língua é ou não é a nossa língua materna, não temos de a considerar tal ou deixar de considerar.

 

[Texto 15 239]

Definição: «peiote»

Alucinante

 

      Aqui um velhote de vez em quando passa-se. Ele diz que foi das drogas que tomou na juventude: LSD, mescalina, peiote. Aproveitemos e vamos ver como define peiote o dicionário da Porto Editora: «BOTÂNICA (Lophophora williamsii) pequeno cacto sem espinhos, nativo do norte do México e do sul dos Estados Unidos da América, é acinzentado, suculento e gomoso, tem formato globular e encerra mescalina, sendo por isso usado em rituais religiosos e como alucinogénio; mescal». Aquele «encerra» estraga quase tudo. Quase, porque «norte» e «sul» com minúscula também contribuem poderosamente para a ruína. Além, claro, do «por isso». Contém mescalina? Meus amigos, vamos já-já usá-lo em rituais religiosos. O Papa Francisco vai delirar.

 

[Texto 15 238]

Léxico: «maloláctico»

Não faz sentido

 

      «Edgardo Pacheco é açoriano e escreve sobre alimentação há quase 20 anos. Estudou Comunicação Social (“quatro anos desperdiçados”, de acordo com o próprio), a que se seguiram pós-graduações em assuntos que não batem uns com os outros. Escreve sobre vinhos, mas dá-lhe tanto prazer compreender uma fermentação maloláctica como fazer provas cegas de tomate, de queijo, de mel, de anchovas ou de batatas do Barroso (“as melhores da nação”)» («Anfitriões», «Fugas»/Público, 10.04.2021, p. 3).

      Os dicionários não registarem o adjectivo maloláctico, mas apenas a locução fermentação maloláctica, seria tão ridículo como acolherem apenas travões carbocerâmicos e não o adjectivo carbocerâmico — seria, mas não é o que acontece?

 

[Texto 15 237]