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Linguagista

Sobre «betesga»

Ah, os dicionários...

 

      «A planta da cidade de 1650 feita por João Nunes Tinoco, cuja cópia está exposta no Museu de Lisboa, não deixa margem para dúvidas quanto à então grande extensão da rua cujo nome significa, no dicionário, rua estreita ou beco sem saída. “O que acontecia é que até ao primeiro levantamento, de [João Nunes] Tinoco, em 1650, havia uma pequena betesga a meio da rua e eventualmente foi essa betesga, a existência da betesga, que originou o topónimo”, especula Mário Nascimento, historiador daquele museu» («Como a Betesga se tornou uma rua tão pequena», Sofia Fonseca, Diário de Notícias, 21.06.2021, p. 16).

      Ah, os dicionários, pois... Dizem agora que é rua estreita, beco sem saída, mas outrora, no de Morais, por exemplo, apenas se lê que é a lojinha, ou taverna pequena, em sítio retirado. É por isso que vejo agora com alguma perplexidade esta acepção relegada para o fim do verbete.

 

[Texto 15 251]

Léxico: «cineconcerto»

Ainda não foi detectado

 

      «Depois da chuva do fim de semana passado, tudo foi programado para esta semana, começa hoje o ciclo de cineconcertos de Filipe Raposo. Transformar o castelo de S. Jorge numa grande sala de cinema ao ar livre, para estes quatro filmes, são temas originais, sinfonias urbanas» («Filipe Raposo toca sinfonias urbanas no castelo S. Jorge», José Carlos Barreto, TSF, 23.06.2021, 8h00).

      Usado de norte a sul de Portugal, e também no Brasil, mas ainda passa ao largo de todos os dicionários. Imagino que seja muito vezes mal grafado, como sucede com o vocábulo «cineteatro».

 

[Texto 15 250]

Léxico: «citotoxicologia | citotoxicológico»

Há sempre coisas novas

 

      «São acompanhados pelo Citeve[,] que irá apresentar as suas competências na conceção e no desenvolvimento de produtos e processos para a área da saúde, fortemente associadas à inovação, bem como a sua oferta em matéria de testes e ensaios na área da microbiologia têxtil e da citotoxicologia, “particularmente importantes para os produtos e dispositivos médicos ou para materiais têxteis destinados ao mercado da saúde e do bem-estar”» («Têxtil hospitalar testa a saúde nas grandes feiras internacionais», Ilídia Pinto, Diário de Notícias, 21.06.2021, p. 14).

 

[Texto 15 249]

Léxico: «tentilhão-dos-açores»

E mais este

 

      «Protegida pela exuberante vegetação do Parque Natural de São Miguel, e animada pelos tentilhões-dos-açores e as alvéolas-cinzentas, a Caldeira Velha (tel. 296 704 649) é um monumento natural notável» («Banhos quentes», Guia Expresso Verão — Açores, p. 19). Tentilhão-dos-açores, ou sachão (Fringilla coelebs moreletti), que também desconheces.

 

[Texto 15 248]

Léxico: «louro-da-terra | ginjeira-brava»

Tudo nosso, tudo esquecido

 

      «No flanco norte do vulcão do Fogo, o olhar distrai-se com os fetos, acácias e endemismos como o louro-da-terra, a ginjeira-brava e a urze» («Banhos quentes», Guia Expresso Verão — Açores, p. 19).

      É o louro-da-terra, ou louro-bravo (Laurus azorica) e a ginjeira-brava (Prunus azorica), bem nossos, mas que tu, Porto Editora, ainda não dicionarizaste.

 

[Texto 15 247]

Léxico: «salamizar | salamização»

Muito visual

 

      «Tacticamente desenvolvem-se num frentismo “antifascista” com divisão e “salamização” da oposição, isolando finalmente os socialistas, que então viriam a reagir em defesa própria» (A Direita e as Direitas, Jaime Nogueira Pinto. Lisboa: Difel-Difusão Editorial, 1996, p. 248).

      Alguns jornalistas, desatentos e preguiçosos, até dizem que foi Jerónimo de Sousa que criou o neologismo em 2015. Está-se mesmo a ver. Também não foi Jaime Nogueira Pinto em 1996. Podem recuar pelo menos duas décadas. Salamizar, salamização. Criatividade linguística é isto.

 

[Texto 15 246]