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Linguagista

Ciberduvidoso, ou falta de critério

O oráculo mais do que falível

 

      O que nos leva inevitavelmente a isto: «Vem este caso a propósito do erro grosseiro de tradução que foi reproduzido no oráculo de uma peça do Telejornal da RTP Madeira, de 16 de fevereiro de 2021. [...] Um dos entrevistados explica como o surf lhe dá satisfação e lhe permite apreciar o oceano, contando com a camaradagem dos outros surfistas. Ora, camaradagem em inglês é camaraderie. E como é traduzida? Nada mais do que como “camaradaria”» («Errare humanum est, mas há limites!...», Paula Torres de Carvalho, in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 23.02.2021).

      Há mesmo limites? Devia haver limites: por exemplo, o Ciberdúvidas devia ser mais criterioso e não publicar críticas cujo cerne está errado, como é caso. O vocábulo camaradaria é legitimamente português, e o único erro é não estar em todos os dicionários. E não veio do inglês: terá vindo do castelhano pelo francês, se é que não se formou já no português. Este o primeiro erro, e erro inadmissível, pois que estrutura, é o cerne de uma crítica. Segundo erro: mas qual oráculo? Vi a peça, e trata-se de legendas — legendas! No caso, transcrevem o que dizia o surfista norte-americano Greg Long, campeão mundial de ondas grandes em 2016.

 

[Texto 15 271]

Léxico: «chambergo»

Quem guarda, acha

 

      Numa revisão, apareceu-me o vocábulo chambergo, um tipo de chapéu espanhol. Espera... É só respigar dos meus apontamentos ainda em papel (!), os meus blocos vermelhos, e já está: «Estava no mesmo sítio e tinha a mesma postura, mas havia uma diferença notável: das poucas vezes que José María a tinha esperado vestido à civil usava o chapéu de outra maneira, mais moderno, mais solto, e não daquele modo que fazia lembrar os chapéus altos e, mais ainda, os tricórnios, e, mais ainda, os chambergos, e toda a sua parentela para trás, que podia deter-se onde se quisesse, na cota-de-malha ou na pele de cordeiro que durante algum tempo tinha livrado os homens dos raios do Sol» (O Casamento de Chon Recalde, Gonzalo Torrente Ballester. Tradução de António Gonçalves. Algés: DIFEL, 1996, p. 167-68). Numa nota de rodapé, o tradutor explica: «Nome que designa os soldados de um regimento da guarda real de Carlos II, criado no século XVII, e que depois se aplicou às peças do seu uniforme e, nomeadamente, ao chapéu.»

 

[Texto 15 270]

Os nomes das doenças, de novo

Simples: alfa, beta, gama...

 

      «“Agora temos esta situação em Portugal. Talvez tivéssemos podido evitá-la. É por isso que devemos trabalhar ainda mais”, frisou [Angela Merkel], preocupada com a disseminação da variante Delta da covid-19 na Europa. “Avançámos nos últimos meses, mas não até onde eu gostaria que a União Europeia estivesse”, acrescentou» («Portugal na lista vermelha alemã», David Pereira, Diário de Notícias, 26.06.2021, p. 7).

      Um polícia atrás de cada cidadão e um revisor atrás de cada jornalista. Os nomes das doenças, com a excepção que já aqui vimos, escrevem-se com minúscula, David Pereira. Ensine aí também aos seus colegas. Não se limite a imitar o que vê por aí. Temos, pois, a variante alfa, a variante beta, a variante gama, a variante delta, a variante delta plus, etc.

 

[Texto 15 269]

Léxico: «lampreia-do-nabão | paul»

Melhorar sempre

 

      Os rios portugueses acolhem sessenta e duas espécies de peixes, aprendi no sábado, num episódio da Biosfera, na RTP2, que era sobre peixes de Portugal. Uma das espécies referidas foi a lampreia-do-nabão (Lampetra auremensis), que não encontramos nos dicionários. Pudemos acompanhar alguns investigadores no paul das Caniceiras, na várzea de Loures, que procuravam espécimes da boga-de-boca-arqueada-de-lisboa. Não deixei de ficar abismado com a definição de paul, muito mais rica em informação do que a dos dicionários. Mas fica aqui esta, ainda mais completa: «Um paul é uma área de terreno localizada, em geral, na parte inferior da bacia hidrográfica de um rio, inundada por este e que se mantém durante todo o ano ou parte deste (embora a maior parte) com água suficiente para proporcionar condições ecológicas distintas e características, favoráveis à existência de uma flora e fauna selvagem próprias» (Carlos M. L. Baeta Neves [1916–1992], «Da evolução histórica das “zonas húmidas” e do seu interesse actual – os pauis», in Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, série 99, n.os 7-12. Lisboa: Sociedade de Geografia de Lisboa, 1981, pp. 227-48).

 

[Texto 15 268]