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Linguagista

Léxico: «genizá»

O caminho só pode ser para a frente

 

      «Rodrigues Lapa ainda parece convencido dos seus pontos de vista e é ele, entre os poucos estudiosos do lirismo medieval, quem resiste à vaga espanhola capitaneada pelo inglês S. M. Stern, que em 1948 deu a conhecer 21 estribilhos, ou “finidas”, jarchas, encontradas nos “pergaminhos da Genizá do Cairo”, as quais parecem demonstrar que as manifestações mais antigas do lirismo peninsular são de origem moçárabe» (Literatura, Literatura, Literatura: de Sá de Miranda ao Concretismo Brasileiro, João Gaspar Simões. Lisboa: Portugália, 1964, p. 368).

      Então Gaspar Simões escreveu, vai para sessenta anos, genizá e nós íamos escrever genizah, é isso? Nem pensar. Que o escrevam dessa maneira os falantes de inglês: «a storeroom or repository in a synagogue used for discarded, damaged, or defective books and papers and sacred objects; 2: the contents of a genizah», como se lê no Merriam-Webster. Não faltam palavras hebraicas e hebraísmos na língua portuguesa. Algumas, e não são assim tão poucas, estão erradamente dicionarizadas com étimos grego ou latino.

 

[Texto 15 456]

Mais confusões

Olhe que não

 

      «Ainda hoje ao almoço estava a observar várias crianças portuguesas que, à mesa com os pais, viam o Luccas Neto no Youtube e (pasme-se!) conseguiam conversar tranquilamente com os circundantes em português de Portugal» («Linguística para psicólogos. Precisa-se», Margarita Correia, Diário de Notícias, 13.09.2021, p. 28).

      A cronista queria escrever circunstantes, isto é, as pessoas que estavam à volta das crianças. Circundante é outra coisa: é meramente adjectivo e significa «que circunda, que rodeia». E já que aqui estamos, deixem que diga que não compreendo a pontuação do título. Onde está ponto, devia estar vírgula: «Linguística para psicólogos, precisa-se». Já quanto ao fundo da crónica, concordo: a reportagem «O Brasil está a invadir o vocabulário dos mais novos», publicado na Notícias Magazine a 26 de agosto, expressa uma opinião completamente desinformada quanto à linguística.

 

[Texto 15 454]