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Linguagista

Extrema-unção e unção dos enfermos

Sinónimos, mas não tanto

 

      «A unção dos doentes, ainda conhecido pelo seu antigo nome extrema unção [sic], é um dos sete sacramentos da Igreja Católica. Para além de dar força espiritual para combater a doença e ajudar na recuperação de uma doença, o sacramento tem ainda o efeito de perdoar os pecados do doente, sendo necessária a confissão do mesmo, caso esteja capaz disso» («David Amess. Polícia não permitiu administração de sacramento», Filipe d’Avillez, Rádio Renascença, 19.10.2021, 10h21).

      Em 1962, a Igreja Católica substituiu a designação deste sacramento: de extrema-unção (Filipe d’Avillez não teve tempo para escrever o hífen) passou a unção dos enfermos. Infelizmente, para os dicionários, são meramente sinónimos. Ora, não fazem o mesmo com «centígrado». No caso do dicionário da Porto Editora, fá-lo anteceder por «[designação fora de uso]», o que é equívoco ou até errado: devia dizer-se que é a antiga designação, e indicar-se esta. Voltando à unção dos enfermos: devia explicar-se melhor em que consiste e corrigir a definição: deixou de ser ministrada «ao fiel em perigo de morte» para passar a ser administrada em qualquer fase da doença, o que constitui alteração substancial.

 

[Texto 15 591]

 

Léxico: «espeitorar»

Mas não vamos esquecê-lo

 

      «Quem maiores gemidos espeitorava era o macho estirado, com os olhos postos no firmamento e um beiço arregaçado, que semelhava, no sorrir sarcástico, a expressão diabólica da raiva» (O Santo da Montanha, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1972, p. 7).

      Eu não defendi que se esquecesse Camilo — lembrei que o mundo deu tantas voltas, que não podemos parar em Camilo e no que se sabia e escrevia na sua época. É que não tarda e temos aí o sesquicentenário da sua morte. É muito tempo. Entretanto, entesouremos, aprimoremos, corrijamos. «Queria pesquisar despeitorar

 

[Texto 15 589]

Definição: «antraz»

Uma solução

 

      Não posso deixar de ficar perplexo ao ver, na maioria das traduções do inglês, ainda as feitas pelos que se reputam mais atentos e sabedores, a palavra anthrax por traduzir. Isto é normal? Meus amigos, acordem: esse anthrax é o nosso antraz, não é mais perigoso nem letal. Um possível contributo para diminuir a frequência com que isto — este erro estúpido — sucede seria acrescentar, no fim da definição, o que se lê no Collins: «Anthrax can be used in biological weapons.» Quem tiver melhor solução, fale agora ou cale-se para sempre.

 

[Texto 15 588]

Léxico: «aviónica | morsa»

De espanto em espanto

 

      «Uma bala perdida», diz-nos o narrador, «podia destruir toda a aviónica.» Isto é verdade, sabemo-lo, leigos que somos. Eu até ia espantar-me que este aviónica não esteja no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas, entretanto, vi, com espanto mais genuíno, que neste dicionário nem sequer está a morsa, o torno de bancada. Mau, mau...

 

[Texto 15 587]