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Linguagista

Léxico: «Zancliano»

Não tem de passar pelo inglês

 

      «[Robert E.] Howard não precisaria de procurar nome para essa sua novela. A ocorrência, com perto de 5 milhões de anos, foi batizada como Dilúvio Zancliano, em alusão à idade geológica com o mesmo nome. História com cenário centrado no Mediterrâneo e argumento a envolver uma desmedida quantidade de água oceânica, uma enchente de proporções bíblicas e os caprichos de falhas tectónicas» («Dilúvio Zancliano, a inundação cataclísmica que encheu o Mediterrâneo», Jorge Andrade, Diário de Notícias, 27.09.2021, p. 18).

      Na verdade, o que lemos em todos os dicionários é Zancleano. A esta hora só tenho por aqui o gato, por isso pergunto a mim mesmo: não devia antes ser Zancliano, se vem de Zancle? Abundo, pois, na opinião de José Pedro Machado: «Zancliano, s. m. Geol. Designação, hoje em desuso, dada a um conjunto de estratos terciários compreendidos entre o andar tostoniano (v.), da série miocénica, e o andar paisanciano, divisão inferior do plioceno.» No mínimo, tem de se dicionarizar como variante, pois é precisamente esta grafia a mais usada entre nós.

 

[Texto 15 616]

Léxico: «à competência»

Vão-se perdendo pelo caminho

 

      «Contavam os maiores de setenta anos, como soberbos de terem nascido a tempo de assistirem aos esplêndidos torneios, as corridas de touros, as folias e cantares, as comédias e chacotas com que fidalgos e plebeus, à competência, perpetuaram e ensilveiraram, para nunca mais se repetirem, festas como as daquele ano de 1627» (O Santo da Montanha, Camilo Castelo Branco. Lisboa: Parceria A. M. Pereira, 1972, p. 57).

      A locução à competência, como à compita, é várias vezes encontrada em Camilo, mas já desapareceu dos dicionários. Depois querem que se leiam os clássicos, quando falta o básico.

 

[Texto 15 615]

Léxico: «escrepe»

Não estão, não

 

      Carpinteiro de limpos... E nomes de ferramentas, estão acaso todos eles dicionarizados? Não, longe disso. «Usa o carpinteiro lixas de papel, começando sempre a lixar a madeira, depois de a ter raspado com o escrepe, com a mais grossa, ou seja, a n.º 2, a que se segue a n.º 1 ½ e por fim a n.º 1, que é a mais fina» (Manual Técnico do Carpinteiro e do Marceneiro, M. Santos Correia. Lisboa: Editora Portuguesa de Livros Técnicos e Científicos, 1986, p. 47).

      O escrepe é uma ferramenta de marceneiro que consiste numa lâmina de aço muito delgada de 1 ½ milímetros de espessura, 10 centímetros de comprimento e 7 centímetros de largura. Serve para raspar a madeira, tirando-lhe o revesso e imperfeições, para de seguida ser passada à lixa.

 

[Texto 15 613]

Léxico: «limpos»

E todos os dias se usa

 

      Há termos e expressões usados no dia-a-dia que, sabe-se lá porquê, sempre se mantiveram arredados dos nossos dicionários. De todos. Por exemplo? Alguma vez eu prometo e não dou? Sugiro, mas não exemplifico? Nunca. Pois bem, está-se sempre a ver, aqui e ali, anúncios de emprego para carpinteiro de limpos. Onde está nos dicionários? Não está.

 

[Texto 15 612]