Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Linguagista

Léxico: «chicharreiro»

Ou não prestaram atenção

 

      «Logo cedo de manhã, perto do porto, veem-se muitos homens sentados em degraus ou em paletes a montar os anzóis nas gamelas que levam para o mar. Têm gosto em explicar, no seu sotaque cerrado e cantado, quem é o velho pescador escavado numa parede pelo Vhils, como é que espetam os anzóis na madeira das gamelas, quantas vezes vão ao mar, o que são chicharreiros, como é que desembaraçam a linha» («As duas faces de Rabo de Peixe», Raquel Albuquerque, «Revista E»/Expresso, 9.10.2021, p. 31). Infelizmente, não havia por ali, naquele momento, nenhum dicionarista que pudesse ouvir a explicação.

 

[Texto 15 741]

Léxico: «papa-léguas»

O verdadeiro, o cuculídeo

 

      «“A” gravação seminal de Richman com os seus Modern Lovers chama-se Roadrunner — palavra que designa o célebre papa-léguas, que todos conhecemos mais como Bip-Bip dos cartoons da Warner, e que é também o título do “filme sobre Anthony Bourdain” feito por Morgan Neville, que será exibido no Doclisboa 2021. O papa-léguas, ave que consegue chegar aos 40 km por hora, é um bicho em constante movimento, à imagem de um Bourdain que abriu horizontes (até a si próprio) ao mesmo tempo que questionava o que isso significava num mundo mais disposto a fechar-se sobre si mesmo» («DocLisboa, a viagem permanente», Jorge Mourinha, «Ípsilon»/Público, 22.10.2021, p. 8).

      Valha-me Deus, Porto Editora, papa-léguas não é apenas, como registas, a «pessoa que anda muito; andarilho; caminheiro» — como fica aqui lembrado, também designa a ave da família dos Cuculídeos, a Geococcyx californianus.

 

[Texto 15 740]

Não sabem, inventam

Não se esforce em vão

 

      Fernando Ruas, presidente da Câmara Municipal de Viseu, falava na CNN Portugal da iluminação de Natal nas ruas da cidade. Nada de ostensivo, para não ser, argumentou, «ofendatório». Podia ter optado por «ofensivo» ou «ofendedor», mas não, estendeu-se ao comprido.

 

[Texto 15 739]

Léxico: «decanato»

No Júlio de Matos

 

      Da sinopse da peça de teatro O Outro Lado da História, que vou ver um dia destes: «Oxford, Inglaterra, finais do século XIX. É aqui que vai conhecer e viver “O OUTRO LADO DA HISTÓRIA” de Alice, baseada em factos reais. Será revelado um dos casos mais enigmáticos de todos os tempos. O Pavilhão 30 no Hospital Júlio de Matos transforma-se num Decanato na época Vitoriana e num tétrico hospício, onde todos podem entrar, mas de onde poucos vão sair. Em “Alice, O Outro Lado Da História” o público vai entrar no conceito do teatro imersivo, fazendo parte da história. É obrigado a seguir as personagens, entrando nas suas vidas e até nos seus pensamentos» («Alice, O Outro Lado da História», e-Cultura). Muito gostam eles da letra grelada: Decanato, época Vitoriana... Vamos ao que mais interessa agora: este decanato não o vejo nos nossos dicionários, mas claro que faz sentido, basta compará-lo com termos semelhantes e com o mesmo termo noutras línguas. Está no Dicionário da Real Academia Espanhola, por exemplo: «Conjunto de dependencias destinadas oficialmente al decano para el desempeño de sus funciones.» E nos dicionários de catalão não se diz que deganat é a «casa o despatx del degà»? Não se afirma nos de romeno que decanát é também o «birourile unde lucrează decanul (și personalul ajutător)»?

 

[Texto 15 738]