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Linguagista

Todas as fórmulas

Ou o máximo

 

      Se calhar não sabes, Porto Editora, mas, em especial no campo da dermatologia, nas farmácias ainda se preparam fórmulas magistrais — medicamentos ou tratamentos individualizados para uma determinada pessoa, preparados pelo pessoal da farmácia. Ou seja, o verbete fórmula tem de ser reformulado, porque também existem, por exemplo, fórmula dimensional, fórmula mágica, fórmula mínima, fórmula molecular, fórmula sacramental, fórmula sagrada... Se registas uma locução, não há razão para não registar todas as demais conhecidas e usadas.

 

[Texto 16 038]

Léxico: «plúrimo»

Ou será tudo etéreo, no ar

 

      «A alegada tentativa de votar duas vezes, o chamado “voto plúrimo”, ocorreu em três mesas de Famalicão e Braga. Na União de Famalicão e Calendário, uma cidadã foi impedida de votar por já o ter feito antecipadamente. O que também sucedeu em Ribeirão, com uma eleitora. Já em São Vicente, Braga, um cidadão, que foi impedido de votar por já o ter feito, negou o facto e fez um protesto que ficou em ata. O JN contactou a CNE e a PGR, que se não pronunciaram por desconhecer as ocorrências» («Irregularidades detetadas em mesas de voto no Minho», Luís Moreira, Jornal de Notícias, 18.02.2022, p. 13). Pelo menos voto plúrimo e (no Brasil) cálculo plúrimo deviam estar, como exemplos de uso, nos dicionários.

 

[Texto 16 037]

Léxico: «cibersoldado»

Cada vez maior, esse exército

 

      «A Rússia tem, nesta matéria, um avanço extraordinário, tem um exército de cibersoldados, vamos dizer assim, li que andaria à roda dos 30 mil. Muitos dos ataques que têm sido perpetrados, quer contra as eleições em países democráticos, quer nestes casos na Ucrânia, têm um efeito muito importante pela disrupção que exercem nas sociedades. Além da parte militar, podem afetar, desde a saúde à segurança social, todos os domínios da nossa vida em sociedade [afirma Nuno Severiano Teixeira, em entrevista]» («“A Rússia tem um exército de cibersoldados”», Inês Cardoso e Ricardo Alexandre, Jornal de Notícias, 27.02.2022, p. 9).

 

[Texto 16 036]

Como se escreve por aí

Nada de recomendável

 

      «Ontem, com a implementação do recolher obrigatório, Vitali Klitschko, autarca de Kiev, anunciou que o metro tinha definitivamente parado de funcionar e que as estações passavam a servir exclusivamente como abrigo antibomba» («Metro de Kiev parou e deu refúgio a milhares», Tiago Rodrigues Alves, Jornal de Notícias, 27.02.2022, p. 6). Quem diz «implementação do recolher obrigatório», também dirá «implementação da República», não, Tiago Rodrigues Alves? Claro que há sempre mais formas erradas do que certas, mas fique a saber que poderia ter optado entre alguma das correctas: «decretar do recolher obrigatório» e «imposição do recolher obrigatório». Mas há mais.

 

[Texto 16 035]

 

 

Léxico: «neopatrimonialismo | neopatrimonialista | neopatrimonial»

Registem-se

 

   «Os aspectos mais críticos em relação ao processo democrático angolano prendem-se, sobretudo, com a prática governativa, com o poder de facto do presidente da República e dos demais órgãos de soberania, pautando-se pelo que, em teoria política, se tornou usual designar por neopatrimonialismo. O conceito foi desenvolvido por Shmuel N. Eisenstadt, inspirado no conceito de dominação patrimonial de Max Weber, um subtipo do que o mesmo designou por dominação tradicional. Na sua versão neopatrimonial, refere Estados ou regimes políticos onde se assiste à concentração do poder num líder, à existência de um relacionamento promíscuo entre economia e política e à deficiente separação entre o domínio público e o privado. Define, em suma, regimes políticos e sistemas de governo desprovidos de mecanismos de controlo da corrupção, registando, em concomitância – e não configurando forçosamente uma relação causal – uma distribuição não equitativa da riqueza e dos bens públicos, fragilidades que, no caso de Angola – pelo menos no plano das intenções – parecem vir a ser paulatinamente contrariadas pelas políticas desenvolvimentistas implementadas nos últimos anos» («O processo democrático angolano. Algumas considerações», José Carlos Venâncio, in Angola: Leituras de Um País em Mudança. Lisboa: Sociedade de Geografia de Lisboa, 2013, pp. 18-19).

 

[Texto 16 034]