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Linguagista

Léxico: «transcarpático | ciscarpático | subcarpático»

Aproveite-se a oportunidade

 

      «Este fim de semana, o atleta iria tentar chegar até casa do seu treinador, Enver Ablaev, em Mukachevo, na zona da Transcarpátia» («Oleksandr Abramenko, de único medalhado olímpico ao refúgio numa garagem de Kiev em três semanas», Bruno Roseiro, Observador, 7.03.2022, 17h48).

      Ainda bem que isto apareceu. É a oportunidade para registar ciscarpático, subcarpático e transcarpático. Até para prepararmos o caminho aos ucranianos que estão a chegar ao nosso país.

 

[Texto 16 064]

Mais uma confusão

Ou trapalhada

 

      «O outro era uma penthouse no London Terrace, um prédio que ocupava um quarteirão inteiro em Chelsea, com uma vista ampla para o Hudson e o Empire State Building, além de lareiras de mármore em divisões de pé-alto. A escolha entre esses dois apartamentos era menos entre casas do que entre sensibilidades, entre vidas, conforme Susan compreendeu imediatamente» («Pré-publicação. Susan Sontag e a capacidade de um astro literário “fazer reféns” na intimidade», Observador, 6.03.2022, 10h32).

      Acontece que «pé-alto» não existe. É confusão com «pé-direito», que é a distância entre o pavimento e o tecto de uma divisão numa casa. Como é quase sempre referido somente quando essa distância é grande, maior do que o usual, estabeleceu-se a confusão. Mais uma.

 

[Texto 16 063]

Começa a usar-se

Felizmente já o temos

 

      «Tem 12 anos e quer ser “designer gráfico”. A mãe, sábia, sugere que ele escolha, em vez disso, ser polícia. Um ciberpolícia. Ele, curioso, pergunta o que é um ciberpolícia. Ela explica que é um polícia que protege a Internet, a informação, que vigia o que os criminosos que se escondem atrás do computador andam a fazer. “Vais ver, vai ser uma profissão muito útil no futuro”. Ele fica a pensar. Talvez a mãe tenha razão. Ser polícia dos computadores parece uma ideia interessante e, no mínimo, diferente, postas as coisas desta forma» («“Parece que não estamos em guerra. Por momentos até me esqueci”», Pedro Cruz, Jornal de Notícias, 7.03.2022, p. 10).

 

[Texto 16 062]

Definição: «cabeça-rapada»

Talvez não

 

      «“Dentro do estádio, pedras, cadeiras e petardos; gritos de guerra, braço esticado, Sig Heil!!” é o refrão de uma das músicas tocadas pelo grupo BiBo (Blood in Blood Out) do qual faziam parte quatro dos 27 arguidos que estão a ser julgados por suspeita de pertencerem aos Portuguese Hammer Skins (PHS), a mais violenta fação dos cabeças-rapadas, em nome da qual terão cometido vários crimes contra negros, homossexuais, muçulmanos, comunistas e antifascistas» («“Nunca ouvi as letras, só me interessava o ritmo da música”», Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 3.03.2022, p. 17).

      Cabeça-rapada, lê-se no dicionário da Porto Editora, e creio que todos dirão o mesmo, é o «jovem com o cabelo rapado que normalmente pertence a um grupo que manifesta comportamento violento e defende posições racistas; skinhead». E se não for e ainda assim engrossar as fileiras destes bandos? Ah, pois... Ou isto é como com os jovens agricultores? Alguns dicionários de língua inglesa dizem que é «a person» ou «an antisocial person», etc.

 

[Texto 16 061]

Léxico: «tira-teimas»

Um verbete anémico

 

      «Taça é tira-teimas para dois anos de equilíbrio» (Nuno A. Amaral, Jornal de Notícias, 2.03.2022, p. 36). No campo do desporto, isto é relativamente comum. Se veio ou não do Brasil, não sei. Ora, não o encontramos nos nossos dicionários. Sem qualquer dúvida, no dicionário da Porto Editora não está, pois de tira-teimas só diz isto: «1. objecto ou meio com que se castigam os teimosos; 2. argumento decisivo; 3. popular dicionário».

 

[Texto 16 060]

«Tanoestética»? Muito feio

Como pode isso ser?

 

      «Hoje, uma Maria da Fonte representativa teria de ser algo nos seguintes moldes: um bairro a revoltar-se contra a construção de um novo cemitério da mesma forma que se revoltaria contra uma incineradora de lixo; um bairro a revoltar-se contra a presença de uma funerária como a de Caitlin Doughty que permite que se toque no corpo, que não faz embalsamamento (tanatopraxia) nem maquilhagem do rosto (tanoestética), isto é, uma funerária que não finge que aquele corpo está só a dormir. É de resto inconcebível a forma como a tanatopraxia e a tanoestética elevam o preço do funeral para lá do aceitável» («Já não sabemos morrer», Henrique Raposo, «Revista E»/Expresso, 18.02.2022, p. 35).

      É, com efeito, um dos serviços que várias funerárias portuguesas oferecem­ — mas estará bem? O que os nossos dicionários acolhem, porém, é tanatoestética. Quid juris? Como é que do elemento tanat(o)-, relativo a morte, passamos a tano-, relativo a tonel, sem ninguém, já não digo morrer, mas sem ninguém sair magoado? É que nestes casos não me parece que possa haver haplologia.

 

[Texto 16 059]