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Linguagista

Léxico: «nevada»

Não é a queda de neve

 

      «“A doçaria conventual – as nevadas e os pastéis de Lorvão – são oferta do município”, frisou a Câmara de Penacova, referindo que quem visitar um dos 11 restaurantes aderentes habilita-se ainda a receber um pack “Descobrir Penacova”, que oferece alojamento, refeições e experiências naquele concelho» («Penacova decide avançar com Festival da Lampreia em abril», Jornal de Notícias, 28.03.2022, p. 26).

 

[Texto 16 193]

Etimologia: «Ramadão»

Ir mais além

 

      «A palavra Ramadão tem origem na palavra árabe ramida, que pode significar “calor severo”, “terra queimada” ou “falta de provisões”, possivelmente pelo facto de se ter celebrado este jejum pela primeira vez durante aquele que foi o mês mais quente do ano. No sentido figurado, a palavra Ramadão refere-se a um ritual de queimar os pecados, tal como o sol queima a terra» («Do Egipto à Turquia — o mundo islâmico celebra o Ramadão», Ana Sousa, Observador, 11.04.2022, 15h17).

      Isso mesmo, mas o dicionário da Porto Editora, na parte da etimologia, diz que vem «do árabe ramadān, “o nono mês do calendário islâmico”». Ora, obrigadinho, claro que vem — mas o mais elucidativo é dizer o que significa na língua de onde provém. No Online Etymology Dictionary, por exemplo, lemos que é o «ninth month of the Muslim year, period of the annual thirty-days’ fast, 1590s, earlier Ramazan (c. 1500), from Arabic Ramadan (Turkish and Persian ramazan), originally “the hot month,” from ramida “be burnt, scorched” (compare Mishnaic Hebrew remetz “hot ashes, embers”). In the Islamic lunar calendar, it passes through all seasons in a cycle of about 33 years, but evidently originally it was a summer month».

 

[Texto 16 192]

Léxico: «entrematar-se»

Nem em bilingues

 

      «Com soluções assim resolvia eu as minhas incertezas e acalmava a suspeita de que, em vez de como nós se dedicarem pacificamente a um emprego ou à lavoura, esses povos longínquos e aguerridos preferiam de verdade entrematar-se» (O Milhão: Recordações e Outras Fantasias, J. Rentes de Carvalho. Lisboa: Escritor, 1999, p. 178).

 

[Texto 16 191]

Léxico: «barco-cisterna»

Agora no principal

 

      «Negligência? Proximidade dos canhões russos? Porque as águas estão minadas e os barcos-cisterna dos EUA deixaram de ter acesso?» («Oração por Odessa», Bernard-Henri Lévy, tradução de Jorge Pereirinha Pires, «Revista E»/Expresso, 1.04.2022, p. 34). Só o vamos encontrar, nos dicionários da Porto Editora, em dois bilingues.

 

[Texto 16 190]

Confusões: «hacker | cracker»

Se confundirmos tudo, não vamos longe

 

      Li há dias que uma ciberbrigada internacional recruta hackers no Telegram para atacar activos russos. Voltei então a lembrar-me da trapalhada, também nos dicionários, quanto à definição de hacker. Para a Porto Editora, temos esta definição de hacker: «INFORMÁTICA pessoa que viola a segurança de sistemas informáticos; pirata informático». Não misturemos tudo. Pedagógico é mostrar como está certo, não seguir o que está incorrecto. Admito que, pejorativamente, mas talvez também ignorantemente, se diz que também significa o pirata informático. Pelo menos — mas não é o ideal! —, separar essas duas acepções. E depois temos a definição de cracker: «especialista em informática que quebra a segurança de sistemas e computadores alheios com o objectivo de provocar danos, roubar dados, etc.». Portanto, este também é dos maus, é isso? São todos? Ao primeiro olhar, o que falha logo é a indicação do domínio: temo-lo no primeiro, não o temos no segundo. E porque é o primeiro a «pessoa» e o segundo o «especialista»? Se alguma coisa for, é o inverso, mas até acho que não se deve ir por aí, nem pelo remendo do «hacker ético». Assim de repente, faz lembrar a trapalhada com ecólogo e ambientalista.

 

[Texto 16 189]

Léxico: «interindividual»

Isso não se faz

 

      «O tempo de vida é curto, oscila, em média, entre dois e cinco anos, após os primeiros sintomas. “No entanto, tem marcada variabilidade interindividual, com doentes evoluindo até à morte durante um ano, e outros levando mais de 20 anos de lenta evolução. A doença é mais comum entre os 55 e os 65 anos, mas afeta um conjunto apreciável de adultos jovens”, adianta Mamede de Carvalho, neurologista, professor de Fisiologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa» («Esclerose Lateral Amiotrófica: prisioneiros no próprio corpo», Sara Dias Oliveira, Notícias Magazine, 21.06.2020). O dicionário da Porto Editora não o regista, mas, crime de lesa-dicionarística, usa-o num verbete, em psicologia.

 

[Texto 16 188]

Léxico: «slot»

Dia sim, dia não

 

      «A TAP detém cerca de 50% das slots (vagas) no Aeroporto de Lisboa, na maioria atribuídas por via de direitos adquiridos, mas não usa cerca de uma centena de janelas horárias por dia. Ryanair e Easyjet concorreram às 18 slots diárias, que a Comissão Europeia obrigou a companhia aérea nacional a dispensar em troca da ajuda estatal de 2,55 mil milhões de euros, e denunciam que a concorrência na capital está a ser bloqueada pela TAP com prejuízo do turismo e da economia nacional» («TAP deixa por utilizar cem slots por dia no aeroporto de Lisboa», Erika Nunes, Jornal de Notícias, 19.04.2022, p. 6).

      Pode pensar-se que é fatalidade, mas eu não acredito: como é que em nenhum dicionário da Porto Editora se fica a saber, de certeza, o que significa o anglicismo, usado abundantemente na nossa imprensa nos últimos anos, slot, como?

 

[Texto 16 187]

Léxico: «semicave | subcave»

Não queres nada com caves

 

      E a propósito de sous-sol. Desta vez, Porto Editora, nem sequer em dicionários bilingues. Podemos ter uma ideia do que é uma semicave, mas a definição legal vai ajudar-nos: «Unidade ocupacional com pisos abaixo do solo, mas cujas cotas de todos os pontos da superfície acabada sejam iguais ou superiores à cota mais elevada de uma das linhas de terra (principal ou de tardoz) confinantes com essa unidade ocupacional. De acordo com este conceito, uma semicave deverá ter sempre, pelo menos, uma das fachadas totalmente livres.» E subcave também não consta no dicionário da Porto Editora.

 

[Texto 16 186]

Crise de maiúsculas, ou falta de revisão

Não têm conta

 

      Então, Porto Editora, explica-nos lá como é que pões os Sarauís no Sara Ocidental e os Azenegues no Sara ocidental. Isso vai dar merda, esses povos aguerridos não vão perdoar nada, nem vírgulas nem minúsculas. (O pior — chiuuuuuuu, que eles não saibam! — é que há muitos outros povos assim no território do dicionário.)

 

[Texto 16 185]