Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Linguagista

Léxico: «autobiografismo»

Tantas palavras

 

     «Como acontece com outros judeus americanos, como Bellow e Roth, o autobiografismo chega a ser embaraçoso» («O luto de Electra», Pedro Mexia, «Revista E»/Expresso, 29.04.2022, p. 56). Está apenas no Dicionário de Italiano-Português da Porto Editora, mas mesmo aqui de uma forma patusca: ao italiano autobiografismo fazem corresponder «tendência para usar elementos autobiográficos numa obra literária». A mim, é isto que me deixa enxofrado.

 

[Texto 16 249]

Léxico: «sabujo | castro-laboreiro»

É ficção, senhores

 

      «Já sobre a origem e características dos cães de raça Castro Laboreiro e Sabujo, destaca a moção que “são totalmente distintas, possuindo características genéticas, morfológicas e funcionais que não admitem qualquer controvérsia ou erro de identificação”. O cão de Castro Laboreiro “é uma das raças caninas mais antigas da Península Ibérica, sendo uma das onze raças com estadão, reconhecidas em Portugal”. “Trata-se de um cão de guarda tipo mastim, enquanto o Sabujo é um cão de caça, de faro por excelência, usado em matilha ou à trela para farejar rastos de odor ou sangue de caça grossa”, explica o documento» («Melgaço quer repúdio da TVI a cena de novela por “ofensa grave” a Castro Laboreiro», Observador, 2.05.2022, 19h34).

      Pronto, agora uma telenovela deixou os castrejos enxofrados. É ficção, senhores. Quanto aos dicionários, sabujo, bem ou mal (mal, diria) definido, está em todos; castro-laboreiro, porém, não está em nenhum. Acham mais natural ter serra-da-estrela. Vá, uma ajudinha da Federação Cinológica Internacional para a definição. Um dia depois, noutro jornal: «Apesar de admitir que se trata de “uma obra de ficção e que, por isso, a margem de liberdade criativa é bastante ampla”, na moção refere-se que a origem e características dos cães de raça castro-laboreiro e sabujo “são totalmente distintas, possuindo características genéticas, morfológicas e funcionais que não admitem qualquer controvérsia ou erro de identificação”» («Melgaço repudia novela onde cão de Castro Laboreiro é posto em causa», Jornal de Notícias, 3.05.2022, p. 21).

 

[Texto 16 248]

Léxico: «quase-paróquia»

Como outras

 

      Está no Código de Direito Canónico: «Se outra coisa não for determinada pelo direito, à paróquia equipara-se a quase-paróquia, que é uma certa comunidade de fiéis na Igreja particular, confiada a um sacerdote como a pastor próprio e que, em virtude de circunstâncias peculiares, ainda não foi erecta em paróquia» (Cân. 516, § 1). E encontrei-a num texto que revi recentemente, mas que não posso aqui citar.

 

[Texto 16 247]

Léxico: «verso branco»

Vamos enriquecer o verbete?

 

      «Peça de Martin Crimp atualiza clássico de Molière, em verso branco, mostrando “o valor do pensamento em ação”, como diz Nuno Carinhas, que o encena no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada. Estreia esta quinta, 28 de abril» («Cinco razões para ir ver O Misantropo», Rita Bertrand, «GPS»/Sábado, 28.04.2022, p. 108).

 

[Texto 16 246]

Léxico: «moldavo | daco-romeno»

Pode repetir?

 

      «João Veloso mostra clareza quanto a esta questão. “Devemos utilizar o nome Moldávia para nos referimos à República Independente e Moldova para designar a parte da Roménia onde se fala moldavo, que é uma língua eslava e não uma língua romena”, explicou. O docente da Universidade do Porto acrescenta que “há uma certa distinção geográfica”. “Aquela parte da Europa, como nós temos visto nos últimos tempos, está em constante fervilhar e o moldavo é uma língua que é falada na Moldávia, numa parte da Hungria, na Roménia e numa parte da Moldávia que tem uma grande quantidade de falantes de russo”, esclarece João Veloso» («Kiev ou Kyiv? Mais do que uma dúvida linguística», Rádio Renascença, 2.05.2022, 6h30).

      Não é uma língua romena ou não é uma língua românica? Hum... Moldavo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «LINGUÍSTICA língua românica falada na Moldávia». Se estão a falar do mesmo, porque é que me parece que dizem o oposto? Porque é isso mesmo que acontece. Pode ser algo mais complexo, mas, paradoxalmente, de fácil explicação: «El idioma que se habla en Moldavia es el rumano, aunque en la época en que el país formó parte de la URSS y durante algún tiempo tras la independencia se le llamó moldavo. En Transnistria, ese moldavo es uno de los idiomas oficiales, junto con el ruso y el ucraniano. Pero, a diferencia del rumano, emplea el alfabeto cirílico y no el latino» («Los nombres de Transnistria», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 30.04.2022, p. 12). E por isso no DRAE se define assim moldavo: «Variedad del rumano que se habla en Moldavia.» Esclarecedor é também isto. Não tenho dúvidas de que uma melhor definição do termo nos dicionários será útil, imprescindível mesmo, a toda a gente — incluindo professores universitários. E, como o moldavo é um continuum linguístico que pertence à variedade daco-romena do romeno, convém também dicionarizar daco-romeno.

 

[Texto 16 245]