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Linguagista

Léxico: «viteliano | lenocida | lenão»

Triste sina

 

      «O sr. Campos Sales teve uma recepção viteliana, com grande gasto de discursos» (Cartas Sertanejas, II, Júlio Ribeiro. Rio de Janeiro: Faro & Nunes, 1885, p. 12). Sim, viteliano, relativo a Vitélio, imperador romano (15-69), e quase sempre referido à sua insaciável gula. Imperador entre Abril e Dezembro! Antes lenocida ou revisor toda a vida. Encontra-se aqui e ali (ultimamente, numa obra que estou a rever), mas não no dicionário da Porto Editora.

 

[Texto 16 307]

Léxico: «apostilhar | apostilhado»

Mais um verbete cego

 

      «A família tem de contratar uma funerária em Portugal e outra na África do Sul. O processo tem de envolver o consulado, pois o óbito tem de ser transcrito e apostilhado [certificado da autenticidade de atos públicos] para serem feitas em Portugal as traduções e o averbamento na Conservatória do Registo Civil”, explicou, ao JN, o agente funerário Hugo Salgueiro» («Trasladação pode demorar três semanas», Reis Pinto, Jornal de Notícias, 14.05.2022, p. 5). Pois, apostilhado está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas o falante que consulta o dicionário não tem como saber o que significa — falta a entrada do verbo apostilhar.

 

[Texto 16 306]

Léxico: «irmanamento»

No que se engana

 

      «“Este irmanamento com a vizinha Galiza aumenta também a expectativa de ter uma grande representação galega”, salientou [David Teixeira, vice-presidente da Câmara de Montalegre]» («Montalegre à espera de milhares de visitantes para celebrar Noite das Bruxas», Jornal de Notícias, 12.05.2022, p. 16). O itálico há-de ser do jornalista, para avisar o leitor (tanto cuidado... desperdiçado) de que o termo não é português. Engana-se.

 

[Texto 16 305]

 

Léxico: «petersburguense»

Avistada ainda ontem

 

      «Traduzido agora directamente do russo, com o rigor e qualidade literárias de Nina e Filipe Guerra, o texto de “O Capote” insere-se no “ciclo petersburguense”, do qual fazem parte “O Nariz” (A&A, 2000), “Diário de Um Louco”, “Avenida Névski” e “O Retrato”, textos que metamorfoseiam a majestosa capital do Império czarista, devolvendo-a ao pântano de onde emergiu e onde todos de uma maneira ou de outra, como muito bem diz o tradutor no prefácio, “perdem o que têm de mais íntimo (o nariz, o juízo, a identidade, o capote)”» («A vingança do morto», Susana Neves, Público, 16.03.2002, 00h00). Ainda ontem a vi numa tradução do russo.

 

[Texto 16 304]

Léxico: «rolar cabeças»

Só para gente importante

 

      «La expresión cortar cabezas resultó tan sugerente para muchos que pasó a emplearse también en sentido figurado. Así se ha aplicado a los destituidos de sus cargos por resultar incómodos. Sin embargo, quizá temerosos los usuarios de la expresión de que tal efusión de sangre acabase salpicándolos, suelen optar hoy por el más pudoroso rodar cabezas, que es lo que hace al caer —si no hay un cesto debajo— lo que queda de una persona del cuello hacia arriba cuando acaba de probar el filo del hacha del verdugo o el de la guillotina. Ahí están nuestros diputados, que, haciendo ejercicio de gran corrección política, exigen que rueden cabezas. Y para que nadie se sienta ofendido ni se dé por aludido, hablan de cabezas en plural y sin identificar a quién pertenecen («Tiempo de rodar cabezas», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 14.05.2022, p. 13). E nós dizemos rolar cabeças — mas não o encontramos nos nossos dicionários.

 

[Texto 16 303]

Léxico: «manja»

Na falta da outra

 

       Enquanto a manga de carregamento dos navios não aparece, eis algo semelhante, pelo menos foneticamente: «Mas nem só de queijo se faz a produção da Granja dos Moinhos. Recentemente, Adolfo começou também a fazer pão a partir de trigo barbela, cuja produção tem vindo a recuperar juntamente com o amigo João Vieira. Os benefícios do barbela são imensos: é um pão com muito menos glúten que o de trigo comum, com muito mais vitaminas. Produz à razão de 50 por dia. Os que não vende e não come usa para fazer a manja, um prato tradicional da região [Ribatejo], à base de pão, batata e azeite, com que recebe os amigos na sua tertúlia, a acompanhar sardinhas ou bacalhau na brasa» («Adolfo Henriques», João Rodrigues, «Revista E»/Expresso, 6.05.2022, p. 78).

 

[Texto 16 302]

Léxico: «armagedão | armagedom»

Pelo menos outra

 

      «“É como entrar no meio de um filme de horror, mas é tudo muito real. É como um armagedão. É esmagador”, afirmou um policial que esteve no local do ataque» («Jovem de 18 anos entra em supermercado e mata 10 pessoas a tiro. Polícia investiga crime de ódio racial», Ana Suspiro, Observador, 14.05.2022, 22h15).

      Ana Suspiro deve pensar que está no Brasil, para escrever «policial» em vez de «polícia». Enfim, como também escreveu que o criminoso proferiu «insultos racionais» e usou uma «arma pesada», o melhor é não ligar — só lamentar tanto amadorismo. Mas falemos de armagedão. Pensei que a opção da Porto Editora fosse dicionarizá-lo também com minúscula, como faz com outros termos, que, em função do sentido, se grafam ou não com maiúscula. Não o faz, ao contrário do que vemos noutros dicionários. Além disso, não regista pelo menos mais uma variante muito usada, armagedom.

 

[Texto 16 301]