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Linguagista

Léxico: «esclerose tuberosa | neurocutâneo | hamartina | tuberina»

Desde 1880

 

       Foi descrita pela primeira vez em 1880 pelo neurologista francês Désiré-Magloire Bourneville (e por isso também se designa por síndrome de Bourneville), mas ainda hoje não está nos dicionários: a esclerose tuberosa, uma doença genética (mas não necessariamente hereditária), uma doença rara. É uma das síndromes neurocutâneas (outro termo, infelizmente, fora do dicionário geral da Porto Editora). Disto mesmo se falou anteontem no Portugal em Directo, na RTP1. Falou-se também, a propósito da esclerose tuberosa, das proteínas hamartina e tuberina, igualmente afastadas dos dicionários.

 

[Texto 16 314]

Léxico: «subtitular»

Castelhano?!

 

      Outra que também desapareceu dos nossos dicionários: «Também é comum a alguns teatrólogos subtitular seus trabalhos com a simples designação de peça, deixando ao público e à crítica o direito de aceitá-los na designação genérica que lhes aprouver» (Correio Retardado: estudos de crítica literária, Joaquim Braga Montenegro. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1966, p. 237). Acontece que já esta semana a vi numa tradução. Felizmente, ainda há tradutores que não receiam fugir ao trivial, ao comum, e que conhecem a língua.

 

[Texto 16 313]

Léxico: «biganau | avezimau | avezimão | avezibom | ser o diabo»

Gente grande, gente pequena

 

      «E vamos lá que cresceu bastante. Tinha dezoito anos e já era um biganau por aí além» (Trindade Coelho, Homem de Letras, Feliciano Ramos. Coimbra: Acta Universitatis Conimbrigensis, 1947, p. 246). Biganau é o indivíduo forte e agigantado. Faz lembrar bisnau, não é? Há por aí muitos pássaros bisnaus. Avezimau/avezimão, avezibom/avezibõo. No Auto da Barca do Purgatório, o lavrador aplica ao Diabo, injuriosamente, o termo «avezimão». Se tudo desaparece dos dicionários, interpretar um texto mais antigo tornar-se-á cada vez mais trabalhoso. É isso, vai ser o diabo.

 

[Texto 16 312]

Léxico: «agave-azul»

Tequila Vaticana

 

      «O papa Francisco brincou com um grupo de padres mexicanos que lhe perguntaram sobre a sua dor crónica no joelho, dizendo que o que precisava para a perna era “um pouco de tequila”, fazendo-os rir. [...] A tequila é uma bebida alcoólica destilada produzida no México a partir da planta agave-azul» («Papa brinca com padres mexicanos e pede “um pouco de tequila” para aliviar dor no joelho», Observador, 17.05.2022, 8h43). Ah, sim, é verdade, agave-azul (Agave tequilana).

 

[Texto 16 311]

Léxico: «alterglobalismo | alterglobalista | pararreligioso | paraético»

Tudo isto se usa

 

      «Considerando a diversidade da “galáxia alterglobalista” como uma de suas grandes riquezas, Samir Amin (2007) identifica três vertentes principais nesses movimentos: o alterglobalismo progressista, de caráter anticapitalista, e que se articula a partir da reflexão crítica sobre as experiências das esquerdas contemporâneas; o alterglobalismo “brando”, que “inspira as tomadas de posição que encontramos tanto nas sociedades opulentas (um certo “ecologismo radical”) como nos países pobres que vivem situações desesperadas (com os fundamentalismos pararreligiosos ou paraéticos); e uma terceira posição, situada entre as duas anteriores, cujos partidários têm sua origem social, majoritariamente, nas classes médias dos países ricos» (Os Militares e o Governo Jair Bolsonaro: entre o anticomunismo e a busca pelo protagonismo, Adriano de Freixo. Copenhaga/Rio de Janeiro: Edições Zazie, 2020, pp. 27-28).

 

 

[Texto 16 310]

Ainda para mais, em inglês

O amor ao alienígena II

 

      Mas nem sempre a culpa é dos dicionaristas: «Igualmente a asafoetida, uma seiva extraída de uma erva que cresce em zonas do Afeganistão e noutros países vizinhos e que é amplamente utilizada na Índia, está em risco por causa das mudanças no clima da região» («O “viagra” da Roma Antiga foi vítima das alterações climáticas», Ana Sousa, Observador, 16.05.2022, 15h23). Porquê a escolha pelo termo inglês, se temos o nosso assa-fétida? Não se compreende — mas conhece-se a origem de tudo isto: preguiça.

 

[Texto 16 309]

Léxico: «sílfio | sílfion»

O amor ao alienígena I

 

      «Durante dois mil anos as pessoas interrogaram-se sobre o que teria acontecido para que a (valiosa) erva silphium se extinguisse na época de Nero. Agora, um estudo, publicado na revista científica Frontiers in Conservation Science, aponta o crescimento da população urbana e a desflorestação — que, consequentemente, mudaram o microclima da região onde o silphium florescia — como as principais causas do seu fim. [...] O silphium era útil até dentro do quarto: além de afrodisíaco, pode ter sido um dos primeiros métodos contracetivos. “É difícil exagerar o quão importante era o silphium, porque os romanos, em particular, eram absolutamente obcecados pela planta”, vincou ao The Guardian Paul Pollaro que, juntamente com Paul Robertson, da Universidade de New Hampshire (EUA), assina o estudo» («O “viagra” da Roma Antiga foi vítima das alterações climáticas», Ana Sousa, Observador, 16.05.2022, 15h23).

      Já os nossos dicionaristas não são nada obcecados, pois não registaram o vocábulo sílfio, ou sílfion — ambos, diga-se, acolhidos pelo VOLP da Academia Brasileira de Letras.

 

[Texto 16 308]