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Linguagista

Léxico: «Garifunas»

Por quem sabe

 

      Um dia destes conheci os Garifunas, que tu, Porto Editora, defines como o «povo de origem ameríndia e africana, presente sobretudo na América Central e no Caribe». No Dicionário da Real Academia Espanhola, como era de prever, diz-se muito mais sobre garífuna: «Dicho de una persona: De un pueblo producto de la mezcla de arahuacos, caribes insulares y negros africanos esclavos en las Antillas que los ingleses deportaron de la isla de San Vicente a Roatán, en 1797, y después se extendieron por la costa atlántica de Honduras, Belice, Guatemala y Nicaragua. U. t. c. s.» Só que nós não estamos impedidos de fazer tão bom ou melhor. (Sim, também resta saber se noutros textos a Porto Editora opta por «Caribe». Talvez não.)

 

[Texto 16 389]

Léxico: «clinocefalia | plagiocefalia»

Tudo na cabeça

 

      Júlio César sofria, ao que parece, coitado!, de duas patologias cranianas congénitas: clinocefalia e plagiocefalia. Como diziam as nossas avós, ninguém pode dizer que está bem. Para a Porto Editora, o primeiro é um termo da teratologia, e está no dicionário geral; o segundo não está identificado como termo da teratologia e encontramo-lo no Dicionário de Termos Médicos. Critério? Ao que me parece, descortinável, nenhum.

 

[Texto 16 388]

Léxico: «à conta de»

Quando e onde menos se espera

 

      Aqui um tradutor escreveu que a personagem «conseguiu tudo há conta de incontáveis horas de trabalho». Ele é que não terá estado incontáveis horas a estudar a língua. Aqui chegados, também estranho o que se lê sobre a locução prepositiva à conta de no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «1. por causa de; 2. a pretexto de; 3. às custas de». «Às custas de»? Um caso para tribunal.

 

[Texto 16 387]

Léxico: «monocultural»

Quando necessário

 

      «Ardiam», afirmou Gonçalo Ribeiro Telles em entrevista a Alexandra Correia, da Visão, «na mesma e a capacidade de retenção da água não se dava, passava a haver um sistema torrencial. A limpeza tem que ser entendida como uma operação agrícola. Mas esta floresta monocultural de resinosas e eucaliptos, limpa ou não limpa, não serve para mais nada senão para arder. Aquela floresta vive para não ter gente. Se houvesse lá mais gente aquilo não ardia assim» («Gonçalo Ribeiro Telles: Esta entrevista tem 14 anos, mas podia ter sido dada hoje», Visão, 20.06.2017, 12h14).

 

[Texto 16 386]

Léxico: «lambe-botismo»

Quase profissão

 

      «Para Alceste (Ivo Alexandre), a amizade está por um fio, ofendido por John (João Cabral) ceder a este nivelamento acrítico que toma o mundo todo por igual, num sofisticado lambe-botismo que, por cortesia, eleva qualquer pessoa destituída de talento à mesma galeria destinada aos génios» («Como viver em mentira, de Molière a Crimp», Gonçalo Frota, «Ípsilon»/Público, 29.04.2022, p. 11).

 

[Texto 16 385]

Léxico: «urgenciação»

E a propósito daquele

 

      «Temos de caminhar», afirma Miguel Soares de Oliveira, ex-presidente do INEM, «para um sistema centrado no utente e apostar num conceito novo que é a “urgenciação domiciliária”. O objetivo é manter o doente em casa, no local mais cómodo para o próprio e família, apoiado e seguro» («É preciso avançar para a “urgenciação domiciliária” para dar alternativas ao doente», Inês Schreck, Jornal de Notícias, 4.04.2022, p. 5).

 

[Texto 16 384]

Léxico: «urgencista»

Mas é o que se lê

 

      «Los médicos de urgencias celebran su día este 27 de mayo y, a la vez que manifiestan “el orgullo de ser urgenciólogos”, demandan un real decreto que convierta su profesión en especialidad, como ocurre ya en 22 países europeos y en más de un centenar en el mundo» («Urgenciólogos reclaman en A Coruña la especialidad que prometió Sanidad», M. Carneiro, La Voz de Galicia, 28.05.2022, p. 6). Então e nós não temos o termo urgencista, que até em documentos da Ordem dos Médicos encontro? Usa-se a par de emergencista, o único que o dicionário da Porto Editora acolhe.

 

[Texto 16 383]

Léxico: «heatburst | downburst»

Entre as mais estranhas

 

       «A conjunção destes fenómenos, com a temperatura a subir repentinamente em 10,5ºC e a humidade a decrescer quase 75%, é rara. Mas tem um nome: heatburst, revelou esta segunda-feira em comunicado o IPMA. É uma ocorrência semelhante ao downburst, o fenómeno meteorológico que terá potenciado o incêndio em Pedrógão Grande há cinco anos, mas o ar é mais quente e mais seco; e pode ser ampliado pela seca que se regista atualmente no Alentejo» («Em cinco minutos, a temperatura em Beja subiu mais de 10ºC, a humidade desceu quase 74% e houve uma rajada 53 km/h. O IPMA explica porquê», Marta Leite Ferreira, Observador, 30.05.2022, 20h14). Entre as muitas coisas estranhas neste mundo, está esta: nem sequer nos nossos dicionários bilingues encontramos estes termos, que, pelos vistos, não têm equivalente em português.

 

[Texto 16 382]