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Linguagista

Léxico: «hidrotoponímia | hidrotopónimo»

Na mesma linha

 

      Ontem de manhã, ouvi na rádio falarem sobre hidrotoponímia e hidrotopónimos. Nos nossos dicionários? Nada, não constam. Ah, sim, já me esquecia: era uma rádio espanhola, a COPE. Nos jornais, nenhum deve levar a palma ao La Voz de Galicia, que se debruça uma e outra vez sobre topónimos, muitas vezes na perspectiva da sua descastelhanização.

 

[Texto 16 396]

Léxico: «cripto-»

Nem oculto nem secreto

 

      Com o mercado de criptomoedas em grande agitação, com um mês de Maio para esquecer, talvez seja boa oportunidade para falar do ethereum, que a Porto Editora define como «tipo de criptomoeda ou moeda virtual». Hum... Vamos melhorar isto? O ethereum é propriamente a blockchain, e o ether (ETH) a sua criptomoeda. (Pois, estão a ver bem: nomes de unidades monetárias, povos e línguas não me parece que se devam grafar em itálico.) À volta disto, temos outras dificuldades linguísticas. Por exemplo, a Porto Editora define criptomercado como a «plataforma digital de acesso restrito usada para o comércio de diferentes produtos, frequentemente ilegais (drogas, armas, etc.), que funciona através de redes informáticas que implicam o uso de programas que garantem o anonimato dos seus utilizadores». Contudo, hoje em dia, quando se usa a palavra é maioritariamente em relação às criptomoedas. Acontece que o cripto- de criptomoeda está a alargar-se dia a dia. Já sabemos que, hoje em dia, tudo é muito mais rápido e envolve muito mais gente, mais falantes. Assim, está mais do que na hora de os dicionários registarem cripto- também como elemento de formação de palavras relativo a «criptomoeda». A sua ausência é uma grande falha. Para terminar: no Dicionário de Português-Espanhol, a bitcoin fazem corresponder, em castelhano, bitcoin e criptodivisa. Esta última, que de facto se usa, ainda não está no DRAE, mas quanto à primeira, a ortografia é bitcóin.

 

[Texto 16 392]

Léxico: «colubrina»

Isso é para Hércules

 

      Avanço já para a conclusão: não, colubrina não é só isso. No Castelo de São Jorge, uma criancinha de uns quatro ou cinco anos trepava afoitamente por uma colubrina. A minha previsão era de que iria estatelar-se nas lájeas vetustas, seculares (ou só dos anos 1940?), e desatar num berreiro, ali mesmo debaixo do olhar dos pais. Só se cumpriu metade da profecia: o berreiro veio perturbar o ambiente até então bucólico, mágico mesmo, daquela tarde e daquele espaço repleto de turistas. Já um pouco perturbado, é certo, pelos gritos regulares dos pavões. Mas este texto não é sobre pavões, mas sobre a colubrina. Tudo somado, não ficamos a saber muito sobre esta arma de fogo de longo alcance nos nossos dicionários. O dicionário da Porto Editora, por exemplo, afirma que é a «arma de fogo, portátil, que disparava apoiada no ombro do combatente e numa forquilha e cuja carga era inflamada por uma mecha». Pois eu garanto que nem uma dúzia dos mais alentados membros da família daquele miúdo berrador suportariam nos seus ombros aquela colubrina de 1622. Outros dicionários definem-na mais modesta e vagamente como «antiga e comprida peça de artilharia». A explicação é que havia vários tipos de colubrinas — bastarda, meia-colubrina, legítima, sacre, entre outras —, facto que os dicionaristas ignoram. Moral da história: é preciso continuar a aperfeiçoar os nossos dicionários.

 

[Texto 16 391]

Léxico: «mantear»

É outra coisa

 

      «Depois foi preciso escolher as castas para o perfil que queria, fazer análises exaustivas aos solos, “mantear a terra” (virá-la e deixá-la exposta ao sol para esterilizar), dar corpo a “uma obra de engenharia brutal”, para drenar os terrenos, quem fruto do abandono, estavam empapados da água que escorria das terras contíguas» («Francisco Batel-Marques, um produtor de espumante que quer a Quinta dos Abibes passeável», Joana Petiz, «DN+»/Diário de Notícias, 19.02.2022, p. 27). Já têm um mantear, sim, mas é «lavrar a terra em mantas».

 

[Texto 16 390]