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Linguagista

Léxico: «ecocídio»

Já hoje

 

      «O PAN “vai dar entrada de uma iniciativa legislativa na Assembleia da República que visa proceder a uma alteração ao Código Penal, de modo que o ecocídio passe a ser considerado crime em Portugal”, lê-se num comunicado do partido enviado aos jornalistas este sábado, Dia Mundial do Ambiente» («PAN quer crime de ecocídio no Código Penal», Observador, 5.06.2022, 17h35). Podemos esperar pela eventual definição legal portuguesa (já há uma internacional), mas, entretanto, a Porto Editora pode e deve, pelo menos, clarificar a sua: «ECOLOGIA destruição intencional de um ecossistema ou de uma comunidade». Que comunidade?

 

[Texto 16 426]

 

Léxico: «celiaquia | Chéquia»

Também facilmente

 

      Doença celíaca e celiaquia... Pois é, mas quase tudo tem solução. Assim, basta em celíaco este simples acrescento: «que ou pessoa que sofre de intolerância alimentar ao glúten (doença celíaca, ou celiaquia)». E celiaquia faz-me, de alguma maneira, lembrar Chéquia (forma que, bem me lembro, considerei aqui estranha, mas a realidade acaba sempre por se impor), nome cada vez mais lido e ouvido, sobretudo no noticiário desportivo. A solução é a mesma: em checo, acrescentar: «natural ou habitante da República Checa, ou Chéquia». Não deixar pontas soltas nem nada de fora. A opção é dos falantes, não nossa.

 

[Texto 16 425]

Léxico: «fibroína»

Por acaso

 

      «Nick Skaer integra a FibroFix Cartilage, uma equipa de investigação dedicada à transformação de seda em cartilagem de substituição para o joelho. Os ensaios clínicos terão início na Hungria e no Reino Unido, ainda durante este ano, na expectativa de que os implantes ortopédicos fiquem disponíveis aos pacientes europeus, em breve. [...] A FibroFix utiliza exclusivamente a proteína da seda (conhecida como fibroína), a qual possui propriedades mecânicas quase idênticas às da cartilagem verdadeira» («Cientistas usam seda nos implantes oculares e do joelho», Jornal de Notícias, 31.05.2022, 12h11).

      Por acaso até está num dicionário bilingue da Porto Editora, fibroin, só que isso de pouco serve.

 

[Texto 16 424]

Léxico: «tubarão-areia»

Nosso, não deles

 

      «Los expertos confirman que se trata de un Odontaspis ferox, un tiburón solrayo de trescientos kilogramos que representa un hallazgo excepcional en Galicia, por tratarse de la primera ocasión en la que se localiza esta especie en las rías, según explica Alfredo López, portavoz de la coordinadora» («El tiburón solrayo que se adentró y pereció en la ría de Arousa era una hembra que superaba los tres metros», R. E. e B. C., La Voz de Galicia, 4.06.2022, p. 26).

      É o nosso tubarão-areia — nosso, não dos nossos dicionários. «Foi por isso com surpresa que tanto visitantes como os próprios trabalhadores do aquário assistiram ao momento. Um tubarão-areia — uma fêmea de oito anos de 2,2 metros —, comeu um tubarão-leopardo, que tinha cinco anos e media cerca de 1,2 metros» («Tubarão surpreende visitantes de aquário ao comer outro tubarão», Diário de Notícias, 29.01.2016, 17h22).

 

[Texto 16 423]

Léxico: «roinga | Roingas»

E tão fácil

 

      «Rohingyas. São a minoria muçulmana de Mianmar (ex-Birmânia, de maioria budista): cerca de um milhão. Expulsos de Rakhine (sul do país), no âmbito de uma campanha de repressão ordenada pelo Governo, centenas de milhares de refugiados vivem em campos no Bangladexe. Uns milhares foram transferidos para uma ilha» («Estados independentes que ninguém ou poucos reconhecem», Margarida Mota, Expresso, 20.05.2022, p. 26).

      Tantos termos aportuguesados ou semiaportuguesados, bem ou mal — mas aquele povo mártir nem sequer ainda mereceu figurar nos nossos dicionários seja com que grafia for. Claro que devíamos escrever — e os dicionários consagrarem — Roingas, tanto mais que não é nenhum arrojo e há já quem o faça. Este desmazelo ou esquecimento é que não pode continuar.

 

[Texto 16 422]

Léxico: «romanismo | romanista»

Se não for por isso

 

      «“A quem dedico? À família, aos amigos também de outros clubes, aos romanistas… Não vou dedicar aos aziados. Quem está aziado, problema deles. Estou demasiado velho para desejar coisas más a quem me deseja coisas más, estou com os meus e agora vou de férias, tchau”, concluiu o técnico» («“Quem está aziado, problema deles. Estou demasiado velho para desejar coisas más a quem me deseja coisas más”, diz Mourinho», Bruno Roseiro, Observador, 25.05.2022, 23h31). «AS Roma venceu o Feyenoord (1-0) e levou romanistas à loucura» («Zaniolo tirou o chapéu a Mourinho, único técnico com os 3 troféus UEFA», Isaura Almeida, Diário de Notícias, 26.05.2022, p. 23).

      Estes romanistas não estão nos nossos dicionários. Devem estar? Não devem estar? Seja como for, no verbete romanista do Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora falta uma acepção, a correspondente à primeira acepção de romanismo, «texto ou qualquer elemento do direito romano introduzido no direito pátrio».

 

[Texto 16 421]

Mais pequeno e menor

Liberdade

 

      «No Brasil dizer “mais pequeno” é tão errado como dizer “mais grande”. E é provavelmente o único caso que, em tanta discussão entre o português de Portugal e o português do Brasil, acho que o segundo tem razão. De facto, parece haver uma regra mais simples e objectiva em não usar as duas formas. Mas também é certo que encontro uma verdade poética em não ser errado em Portugal dizer “mais pequeno”» («O Brasil tem razão em não dizer mais pequeno», Tiago de Oliveira Cavaco, Observador, 5.06.2022, 00h15).

      Se a língua tivesse sido ideada por um Deus linguista, talvez não padecesse de irregularidades e anomalias, estas e outras, mas nunca seria perfeita, porque é usada pelo homem. Terá mesmo razão o Brasil? Não: melhor estamos nós, que podemos dizer, sem ninguém o poder apontar como erro, «mais pequeno» e «menor». Preferimos a primeira, mas não estamos obrigados a usá-la. Entre razão e liberdade, a escolha não podia ser mais fácil.

 

[Texto 16 420]