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Linguagista

Léxico: «isocolo | isócolo | isocólon | cólon»

A retórica de rastos

 

      Como alguns sabem, Santo Agostinho utilizava na escrita sobretudo três meios recomendados por Cícero no De Oratore. Um deles era o isocólon, que a Porto Editora (que remete simplesmente de isocólonisócolo) define assim: «RETÓRICA diz-se do período constituído por dois segmentos (ou cólones) sintacticamente simétricos». Até aqui, quase tudo bem: se passarem a ter os três a mesma definição, o que não acontece agora, e houver remissões mútuas. O pior mesmo é cólon/cólones nos mandar para onde não queríamos ir: «ANATOMIA toda a parte do intestino grosso compreendida entre o cego e o recto». E manda-nos para aqui porque não tem mais nada. Faltam duas acepções e várias expressões no verbete.

 

[Texto 16 438]

Léxico: «piretróide»

Um insecticida

 

      «Patrícia Figueiredo, coordenadora do Núcleo de Apoio à Higiene Urbana e Controlo de Pragas da Câmara Municipal de Lisboa, revela que “é utilizada uma solução de piretroides sem repelentes, de baixa concentração (2% a 3%) por litro, e uma dose de 50 ml por ninho, para menor valor residual e, logo, menor impacto ambiental”» («Vespa asiática ataca em Lisboa. Este ano já foram desativados 60 ninhos», André Cruz Martins, Diário de Notícias, 6.06.2022, p. 18).

 

[Texto 16 437]

Léxico: «trapio | negócio(s) de junça podre»

Não tornarei a ouvi-las

 

      Um dia destes, um leitor deste blogue foi a Santarém e viu um pouco por todo o lado cartazes a anunciar uma tourada em que se usava a palavra «trapio». (Não sei porquê, ocorreu-me agora a palavra ecofascismo.) Só que, num cartaz tauromáquico, apenas podia ser o castelhano trapío, «bravura, galhardia». Portanto, está tudo bem, e encontramo-la no respectivo dicionário bilingue da Porto Editora e noutros. O pior é não encontrarmos o nosso trapio nos dicionários. «— Podes lá com a vida dum homem daquele trapio! É pior que os porcos» (Terras do Demo, II, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Bertrand Editora, p. 263). Aqui, é trabalheira suja, como se lê na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Mas também tem o significado de «conjunto de trapos; trapagem; farrapada», e nesta acepção já a ouvi. Há palavras e expressões que não tornarei a ouvir, bem sei. Uma delas, de que me lembro de quando em quando, é «negócio(s) de junça podre», usada para qualificar maus negócios.

 

[Texto 16 436]

Léxico: «viola amarantina»

Porque há sempre melhor

 

      «A viola amarantina não é um instrumento especialmente familiar. Tem berço em Amarante, duas aberturas frontais em forma de coração e dez cordas de aço dispostas em cinco cursos» («Viola híbrida, som híbrido, disco híbrido», Jorge Manuel Lopes, Jornal de Notícias, 7.06.2022, p. 27). Portanto, diz mais do que o dicionário da Porto Editora: «instrumento semelhante à viola braguesa, mas com a boca em forma de dois corações».

 

[Texto 16 435]

Léxico: «cabecense»

O Portugal esquecido

 

      Porto Editora, aqui à puridade te digo que cabecense não é apenas o natural ou habitante de Cabeça, em Seia. Então os naturais ou habitantes de Cabeças, em Tomar, não são também cabecenses? Até ouvi dizer que está lá um menino, o bem-comportadíssimo A., muito triste por ver o gentílico escorraçado do dicionário. E até merecem mais estar no dicionário do que os de Seia, porque têm mais cabeça (cabeças, em rigor).

 

[Texto 16 434]