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Linguagista

Léxico: «interpermutável»

Não é o que vejo

 

      «Assim, além de perfeitamente interpermutáveis entre os seus agentes, como já vimos, estas atitudes poderiam não ter passado de três lances de uma vida (não confundir com três fases duma personalidade)» (Fernando Pessoa: poeta da hora absurda, Mário Sacramento. Lisboa: Vega, 1985, p. 137). Já agora, diga-se também que intermutável é largamente empregado num sentido que não é o recolhido pelos dicionários.

 

[Texto 16 488]

Léxico: «retorização | metaliteratura | metaliterário»

Em casa dos vizinhos

 

      «O amor, a partilha, a participação, o peso das paisagens, o poder dos corpos e das coisas agitam esta rugosa escrita que se sente continuamente atenta a si mesma, preocupada com os seus movimentos de retorização» (Rima Pobre: poesia portuguesa de agora, Joaquim Manuel Magalhães. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 1999, p. 216). E a propósito desta acudiu-me à mente o termo metaliteratura (e, agora que o escrevo, metaliterário), também usado em análise literária — mas que vou encontrar no dicionário dos nossos vizinhos: «Literatura cuyo objeto es la propia literatura.»

 

[Texto 16 487]

Definição: «tópica»

Era o que faltava

 

      Muitos, e entre eles a jornalista Inês Serra Lopes, queriam que José Sócrates usasse fórmulas de modéstia para, fora do tribunal, se dirigir aos juízes e ao Ministério Público, o que me parece simplesmente inconcebível. Isso era adequado na tópica da Antiguidade, não no século XXI. Na Antiguidade, e mais tarde, o uso das fórmulas de modéstia e de autodepreciação tinha origem justamente no discurso judicial, que devia predispor favoravelmente os juízes, o que depois passou para a literatura. (Infelizmente, no dicionário da Porto Editora, tópica, a «ciência dos tópicos» conduz-nos a tudo e a nada.)

 

[Texto 16 486]

Léxico: «trematódeo | esquistossomose | bilharzia | febre-do-caracol»

Ou diferente ou em lado nenhum

 

      «Segundo o The Telegraph, uma nova doença está a emergir em África, “região onde os vermes trematódeos são endémicos”. Depois de serem soltos por caracóis de água doce, explica a publicação, os vermes “procuram um hospedeiro humano e entranham-se na corrente sanguínea, com consequências potencialmente fatais”. A Organização Mundial da Saúde estima que, em toda a África subsaariana, 56 milhões de mulheres e meninas estejam infetadas pelo parasita, “que desencadeia uma doença chamada esquistossomose genital feminina (FGS)” e que é conhecida coloquialmente como “bilharzia” ou “febre do caracol”» («Febre do caracol. A nova doença que está a emergir em África», Nascer do Sol, 15.06.2022, 16h27).

      Tens, Porto Editora bilhárzia, mas também existe bilharzia; tens trematode, mas existe igualmente trematódeo. Tens esquistossomose, mas apenas num bilingue («infectie van de ingewanden, veroorzaakt door wormen»); não tens febre-do-caracol em lado nenhum.

 

[Texto 16 485]

Léxico: «caralhós»

E dizê-lo a toda a gente

 

      «Além dos lingueirões, ou “caralhóses”, a experiência “Apanha de bivalves”, da Terra d’Água, procura também berbigão, amêijoa e burriés, estes junto à vegetação ou nas pedras» («Guias grátis Portugal Secreto: apanhar “caralhóses”, dormir num Ninho de Sal e passear na ria», «Boa Cama, Boa Mesa»/Expresso, 15.06.2022, 15h42). Trata-se de um localismo. Se eles lá usam a palavra, só temos de dizer ao País que é assim — corrigindo, de caminho, a errada acentuação da palavra propinada pelos nossos queridos jornalistas.

 

[Texto 16 484]