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Linguagista

Léxico: «inauditável»

Estão enganados

 

      Vá, depois digam que não se usa: «Bolsonaro citou informação de que o PSDB, após a derrota de 2014, disse que o sistema é “inauditável”. Auditoria do partido não encontrou fraude» («Bolsonaro ataca sistema eleitoral em ato com embaixadores e TSE reage», Felipe Frazão, O Estado de S. Paulo, 19.07.2022, p. A6).

 

[Texto 16 652]

Tutorar, tutorear, tutelar...

Pode ficar melhor

 

      A Universidade do Algarve estava recentemente a oferecer cursos intensivos gratuitos de português para os refugiados ucranianos. «Estes voluntários», disse alguém daquela instituição de ensino na TSF, «por um lado, são professores, já com uma experiência muito vasta em termos do ensino de Português, mas que vão também tutorear e, portanto, e vão apoiar estudantes de cursos de línguas e estudantes de cursos que de alguma forma já tenham experiência e que já tenham competências que lhes permitam apoiar no desenvolvimento e implementação destes cursos com mais facilidade.»

      Porque é que no dicionário da Porto Editora se remete de tutorear para tutelar em vez de tutorar, se este é um verbete completo, com a definição, e mais próximo daquele? Ah, e também tenho sérias dúvidas de que em tutelagem se deva dizer apenas «actos ou funções de tutor».

 

[Texto 16 651]

Léxico: «Pé-de-Perdiz»

Quase nada

 

      «Notava ainda [Virgílio Loureiro] que “o encepamento é, como as masseiras, histórico, pois tem castas que já vão rareando. Nas brancas impera a Loureiro, mas também há Malvasia (!) e Rabigato; nas tintas há Vinhão, Borraçal, Pé de Perdiz, a raríssima Mimosa e outras, confirmando que é um património precioso que urge preservar”» («As vinhas das masseiras não podem morrer!», José Augusto Moreira, «Fugas»/Público, 9.07.2022, p. 19). Podemos vê-lo no dicionário da Porto Editora, é verdade, mas apenas diz isto: «BOTÂNICA casta de uva branca».

 

[Texto 16 650]

Ortografia: «androgénio»

Só para génios

 

      «O neurobiólogo Daniel Tobiansky, que estuda pica-paus no St. Mary’s College of Maryland (Estados Unidos), defende que poderá haver outros fatores a proteger o cérebro dos pica-paus das lesões crónicas, mas que não provocam contusões: hormonas esteroides, como o androgéneo e o estrogénio» («Afinal o pica-pau tem cabeça de martelo rígido, não de amortecedor», Vera Novais, Observador, 18.07.2022, 20h18).

      Claro que está errado! Mas, e se eu vos disser que o encontramos assim em dicionários? Não duvidariam, eu sei. A prova: em adrenosterona, no Dicionário de Termos Médicos da Porto Editora, lê-se que é o «esteroide androgéneo do córtex das glândulas suprarrenais». Claro que no caso do artigo ainda é menos desculpável, pois logo a seguir a jornalista usou a palavra «estrogénio».

 

[Texto 16 649]

Léxico: «envelope de voo»

Novo para nós

 

      «Entre outros aspetos, a fase seguinte da investigação do GPIAAF [Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários] vai debruçar-se sobre “os fatores organizacionais e procedimentos envolvidos na operação de combate aos incêndios, o envelope de voo e condicionantes locai, os fatores humanos referentes ao tripulante da aeronave acidentada e o funcionamento da aeronave no pré-evento, incluindo a análise ao motor”» («Morte de piloto. Avião “iniciou movimento abrupto” e despenhou-se», Rádio Renascença, 18.07.2022, 18h10).

 

[Texto 16 648]

Léxico: «biocolonização»

Tudo tem (ou devia ter) nome

 

      «“Vai permitir retirar a ‘biocolonização’ excessiva que ao longo de séculos se acumulou nestes extremamente imbricados elementos pétreos e escultóricos, devolvendo-lhes a plena leitura iconográfica, decorativa, permitindo uma fruição e um entendimento muito mais imediato do monumento”, declarou [Isabel Cordeiro, secretária de Estado da Cultura]» («A Janela Manuelina, as fachadas e as coberturas: começa o restauro do Convento de Cristo em Tomar, que vai custar um milhão de euros», Observador, 18.07.2022, 15h59).

 

[Texto 16 647]

Léxico: «cardus | decumanos»

Cabem aí em algum dicionário?

 

      «Em 1922, Marques da Silva define pela primeira vez um novo eixo E-W, que estabelece uma lógica de “cardus-decomanus”. É também ele que imagina o formidável belvedere com balaustrada, escadaria, jardim e azulejos que, ainda hoje, marca a praça Coronel Batista Coelho» («A importância do urbanismo», José A. Rio Fernandes [geógrafo e professor da Universidade do Porto], Jornal de Notícias, 13.07.2022, p. 18).

 

[Texto 16 646]

Léxico: «anexotomia | anexotómico»

Mais um -tomia esquecido

 

      «Fez quimioterapia, radioterapia, um ciclo que durou meses e que foi “infernal”, deixando-a prostrada física e psicologicamente. Acabaria submetida a mastectomia da mama direita, esvaziamento axilar, histerectomia total, anexotomia bilateral» («Clínica condenada por demorar meses a avisar doente de cancro grave», Óscar Queirós, Jornal de Notícias, 17.07.2022, p. 15).

 

[Texto 16 645]

Como se pensa por aí

Toma!

 

      «No julgamento, Ascenso Simões alegou que, em Trás-os-Montes, de onde é natural, a expressão “burro” é de “uso corrente” e não tem caráter ofensivo. O argumento não convenceu a magistrada. “Todos sabemos que é uma expressão ofensiva”, frisou aquela na leitura da sentença, observando que, de qualquer modo, o episódio ocorreu em Lisboa, numa altercação com um polícia, que “se sentiu ofendido”» («Ex-deputado punido com multa e pena suspensa por insultar e agredir PSP», Inês Banha, Jornal de Notícias, 15.07.2022, p. 16).

      Na terra dele chamam-se burros uns aos outros, e ninguém leva a mal. Chega a Lisboa e põe a teoria à prova escolhendo logo um polícia. Os advogados, coitados, fazem o melhor que podem (alguns), mas, claro, não são taumaturgos, apenas advogados (alguns falsos).

 

[Texto 16 644]