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Linguagista

Etimologia: «moscadim»

Parece-me evidente

 

      No Portugal em Directo da RTP1, na segunda-feira, uma reportagem mostrou-nos a Casa do Moscadim, na Chamusca. De onde vem o nome? O historiador Joel Moedas Miguel, responsável do projecto museológico desta casa senhorial do século XVIII, que pertenceu a figuras da alta sociedade ao serviço da Casa das Rainhas, disse que provém de uma figura de convite única em Portugal. A figura, como pudemos ver, está trajada à última moda pós-Revolução Francesa, já sem meias até ao joelho, antes com calças compridas, moda introduzida pelos sans-culottes, a extrema-esquerda. Surgiu depois uma segunda geração pós-revolucionária, os muscadins, uns janotas aprumadíssimos, e assim chamados porque se perfumavam sempre com musc — almíscar. Ora, o dicionário da Porto Editora, que acolhe moscadim («peralvilho, casquilho»), indica assim a etimologia: «De moscado+-im». Atentas todas as circunstâncias históricas, está fora de dúvida que moscadim veio directamente do francês muscadin.

 

[Texto 16 687]

Léxico: «fulniô»

Únicos

 

      «A exposição lembra quando o Brasil ganhou a Copa do Mundo de 1958 e o rei Gustavo da Suécia cumprimentou todos os jogadores brasileiros, incluindo Pelé, um descendente de bantos escravizados, e Mané Garrincha, um índio fulni-ô» («Rio de Janeiro, cidade hardcore», João Sousa Cardoso, «P2»/Público, 22.05.2022, p. 13).

      Por motivos óbvios, vamos registá-lo tal como o vemos grafado no VOLP da Academia Brasileira de Letras — fulniô. João Sousa Cardoso aconselhou-se com quem, um índio qualquer? (O «qualquer» é para atenuar o politicamente incorrecto.) Quando se trata de ortografia, temos de seguir os especialistas. Embora alguma coisa os Fulniôs saibam, porque são os únicos povos indígenas do Nordeste que conseguiram preservar o idioma nativo.

 

[Texto 16 686]

Léxico: «estamparia»

Nem um

 

      «Também não fica de fora das culturas organizacionais, agora muito menos cinzentas graças a fatos de cores garridas, camisas estampadas, vestidos retos com bordados de linha e trench coats com estamparia tribal» («África nossa», Gabriela Pinheiro, «Revista E»/Expresso, 8.07.2022, p. 83). Não há um só dicionário de português deste lado do oceano que acolha estamparia nesta acepção.

 

[Texto 16 685]

Léxico: «microárea»

Tudo pegadinho, Guta

 

      «O design, sobre o qual falo aqui semanalmente, de uma forma ou de outra, de um ângulo ou de outro, a tal disciplina relativamente recente onde ainda observamos o expandir das suas próprias fronteiras, tem vindo a segmentar-se em micro-áreas de especialização ou foco» («O país do turismo», Guta Moura Guedes, «Revista E»/Expresso, 8.07.2022, p. 82).

 

[Texto 16 684]

Inaugurado um passeio

Muito cativado

 

      Na semana passada, Margarita de Borbón (n. 1939) foi homenageada na toponímia do Estoril. A assistir ao descerramento da placa — Passeio Margarita de Borbón, Infanta de Espanha (rua particular) —, além dos políticos locais, da infanta e alguma família, a minha vizinha Lili Caneças. O Emplastro não estava, porque isto é longe do seu couto e desejo de acontecimentos mais multitudinários. Bem, mas tudo isto é para me congratular por ter posto no dicionário da Porto Editora passeio também como designação de percurso ou arruamento urbano. (Fiquei muito cativado com a modéstia e o domínio do português da infanta — que só escorregou numa «ilusão», mas isso também é comum em alguns dos dez milhões de tradutores do castelhano entre nós.)

 

[Texto 16 681]