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Linguagista

Léxico: «desrussificar» e família

Já vamos atrasados

 

      Agora, Porto Editora, já estás preparada para este: «Um “passo importante para limitar a influência do agressor russo na nossa história”, considerou Klitschko, mas ainda longe do fim. O processo de “desrussificação” em marcha, como tem sido chamado, já levou também a alterações nos currículos escolares: Guerra e Paz, de Leo Tolstoi, por exemplo, foi retirado do programa de Literatura Mundial» («Kiev renomeia uma centena de ruas para se livrar do passado russo», Carolina Amado, Público, 25.08.2022, 21h43).

      Nada de especial. Afinal, o VOLP da Academia Brasileira de Letras acolhe desrussificação, desrussificado, desrussificador, desrussificamento, desrussificante, desrussificar e desrussificável.

 

[Texto 16 883]

Léxico: «molho à bolonhesa»

Há sempre quem não saiba

 

      «Betsy avançou para a cozinha, para começar a preparar um molho à bolonhesa, e Ethan seguiu-a» (Os Interessantes, Meg Wolitzer. Tradução de Raquel Dutra Lopes. Alfragide: Teorema, 2014, p. 173). Convém ir para o dicionário. Porquê? Porque estão lá outros molhos e, sobretudo, porque até nisto há quem erre: há dias, um tradutor queria que fosse «molho à Bolonhesa».

 

[Texto 16 881]

Definição: «borracho | peia»

Já sabes: infinitamente melhorável

 

      «Borracho é o nome do recipiente utilizado para o transporte do vinho, feito a partir de uma pele de cabra ou de cabrito inteira do pescoço às patas, que depois era “limpa e barbeada”, virada do avesso e posta a secar ao sol durante um mês. [...] borracho”. A peia, uma corda de lã de ovelha, era amarrada nas extremidades e assentava na testa do borracheiro durante a viagem, garantindo o equilíbrio do borracho em cima dos ombros, ao mesmo tempo que um bordão era utilizado para auxiliar na caminhada» («O borracheiro. Uma profissão que o desenvolvimento apagou», Diário de Notícias, 5.09.2022, p. 18). Não dizes tanto de «borracho», Porto Editora, e nada dizes de «peia».

 

[Texto 16 880]

Léxico: «criopreservador»

Voltamos à ciência

 

      «Agente criopreservador. Em 2016, Ana Rita Duarte tinha recebido 1,87 milhões de euros do ERC para investigar uma nova classe de solventes considerados “verdes”, os solventes eutécticos profundos de origem natural, através do uso de misturas de compostos naturais como açúcares e aminoácidos. A cientista da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT Nova) recebe agora uma bolsa de “Prova de Conceito” para o desenvolvimento do novo agente mais verde, menos tóxico e mais seguro para a criopreservação de novas terapias celulares» («Bolsas para Portugal para preservar terapias celulares e rebentar bolhas de desinformação», Teresa Sofia Serafim, Público, 7.09.2022, p. 29).

 

[Texto 16 879]

Definição: «borracheiro»

Isso é pouco

 

      «Basílio Nóbrega tinha apenas 13 anos quando começou a trabalhar como borracheiro, designação atribuída na Madeira a quem transportava vinho às costas num recipiente feito de pele de cabra, uma profissão que já se extinguiu. “Tenho agora 71 anos e a última viagem que fiz foi há uns 20”, disse à Agência Lusa e logo sintetizou o seu percurso profissional: “Quando comecei, com 13 anos, carregava um borracho de 22 litros e meio. A seguir, dos 14 por diante, comecei a transportar um de 45 litros, mas também carreguei borrachos de 67 litros e meio”» («O borracheiro. Uma profissão que o desenvolvimento apagou», Diário de Notícias, 5.09.2022, p. 18).

      Se apenas dizes, Porto Editora, que é «o que transporta vinho em borrachos ou odres», não faltará que encolha os ombros porque não percebe. Ah, e talvez seja melhor falar no passado — «transportava». E era a pé e por montes e vales, não de trotineta eléctrica no bem-bom da cidade.

      Claro que, antes de tratar dos borracheiros, a Porto Editora tem de corrigir e concluir o verbete de Isabel II e abrir o de Carlos III.

 

[Texto 16 878]