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Linguagista

Léxico: «dar-se ao trabalho»

Antes que a estraguem mais

 

      «Quem iria entender as ironias e contradições sob as aparências óbvias? dar-se ao trabalho de analisá-las? Para quem escrevo eu? Para os amigos do café, que desejam tudo, menos ver-me triunfar? para o Leitor Abstracto?» (O Milagre segundo Salomé, José Rodrigues Miguéis. Lisboa: Editorial Estampa, 1982, p. 642). Gostava de encontrar esta expressão em todos os dicionários, pois vejo que andam por aí a escrevê-la de uma forma menos portuguesa.

 

[Texto 17 268]

Léxico: «peeira»

Não se trata de ulceração

 

       «Tudo, no mundo rural, girava à sua volta. O lobo era o senhor da floresta medieval, que enchia de terror nobres, padres e camponeses. Era a encarnação do Mal e do Demo. Acreditava-se que algumas maldições davam origem a lobisomens e peeiras — as fadas dos lobos [diz, em entrevista, Paulo Caetano, co-autor, com Miguel Brandão Pimenta, de Feras e Homens — A Fauna no Portugal Medieval, Bizâncio]» («O lobo era o senhor da floresta medieval», Fernanda Cachão, «Domingo»/Correio da Manhã, 20-26.11.2022, p. 30).

 

[Texto 17 267]

Léxico: «visibilização»

Prosseguindo

 

      Este vai no mesmo sentido do anterior: se todos os dicionários registam invisibilização, como é que nenhum regista visibilização? «La historia de la astrónoma Jocelyn Bell (Belfast, 79 años) es quizás una de las más emblemáticas de lo que significa para muchas científicas la invisibilización de su trabajo. Suyo es el mérito del descubrimiento de uno de los cuerpos estelares que más quebraderos de cabeza supuso para los astrónomos de su época» («“Me felicitaban por casarme, pero no por mis descubrimientos”», L. Tancredi Barone, El País, 20.11.2022, p. 31).

 

[Texto 17 266]

Léxico: «geoturista»

E de facto

 

      «A classificação da IUGS, diz [o geólogo Artur Abreu Sá, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD)], reforça este geossítio como “um lugar de excelência para a ciência, a educação e o geoturismo”» («Três locais de Portugal incluídos nos 100 principais sítios geológicos do planeta», Teresa Firmino, Público, 4.11.2022, p. 28).

      Uma pessoa que seja dada a reflectir inevitavelmente chegará à conclusão de que, se existe geoturismo, terá de existir geoturista.

 

[Texto 17 265]

Léxico: «cisionista»

E ainda nada

 

      Já em 2009 eu chamava a atenção para a palavra. «A Geórgia, que tem parte do seu território ocupado num esquema semelhante ao que os russos desenvolveram no Donbass, e a Moldova, que tem uma “república” cisionista do outro lado do Dniestre, criada pela presença de um exército russo quando da fragmentação da URSS, podem também assistir a anexações formais, embora já o sejam de facto» («Habituemo-nos àquilo a que nunca nos deveríamos habituar», José Pacheco Pereira, Público, 22.10.2022, p. 11).

 

[Texto 17 264]

Tradução: «l’ombre au tableau»

Uma sombra

 

      «Para se medir o benefício de que Diogo do Couto passava a fruir, convém lembrar que os papéis de Salsete e Bardês se encontravam até então em poder dos vigários das freguesias, e os livros de chancelaria em mãos do próprio governador do Estado. A provisão especifica que, mesmo que os párocos se mostrassem renitentes, fossem obrigados pelo arcebispo de Goa a entregar os papéis ao guarda-mor. Única sombra no quadro: o guarda-mor não passará certidões de despachos sem autorização do vice-rei» (Em Torno de Diogo do Couto, António Coimbra Martins. Coimbra: Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1985, p. 74).

      Quem não percebe logo, de tão sugestivo? Senão: vem do francês. O problema é, nas traduções, as tentativas canhestras de o verter. Qual o maior pecado — o decalque do original ou não se perceber nada?

 

[Texto 17 263]