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Linguagista

Conjunção «porque»

O último segredo

 

 

      «Só aguentei ler [O Último Segredo, de José Rodrigues dos Santos] porque não me chamam fraudulenta. Eu não me encontrei no lixo, já dizia a minha avó. A Bíblia pertence a uma história que não se deixa degolar pela lâmina de um qualquer jeitoso para a escrita» («Isto não é o último segredo», Fátima Pinheiro, Público, 17.12.2011, p. 35).

      Como interpretar a primeira frase? Só atribuindo à conjunção porque um valor final (equivalente à locução para que), o que exigiria o verbo no conjuntivo, a frase seria lógica. «Só aguentei ler porque [para que] não me chamem fraudulenta.» O que, convenhamos, seria pura ressurreição arcaizante do emprego de porque como conjunção final. Curiosamente, ainda ontem o consultor do Ciberdúvidas Miguel Moiteiro Marques (já nosso conhecido, e não propriamente por acertar naquilo que escreve) escrevia: «O uso de porque como conjunção final (com o sentido de “para que”) não é corrente no português moderno, embora esteja contemplado em certas gramáticas.»

 

[Texto 840] 

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