Formas de tratamento

Nunca estão satisfeitos

 

 

      «Verifico com frequência, como tradutora e também como revisora, que, perante a impossibilidade de usar você ou tu, a língua não nos apresenta alternativa viável, havendo casos em que a solução de ausência de termo torna difícil entender que nos dirigimos ao leitor, que o sujeito é ele.

      Mais do que uma pergunta, sinto que é hora de lançar um desafio aos linguistas: faz falta uma solução educada e não ofensiva para nos dirigirmos ao outro.

      Sinto que, na procura por um grau de tratamento polido, nos enrolámos, criando um beco sem saída.»

      Como revisor e tradutor ocasional, nunca senti tal. Como tradutora e revisora, cara Ana Maciel, devia saber que não pode esperar dos linguistas soluções para esse putativo problema, que impropriamente designa por ausência de «grau de tratamento polido».

      Felizmente, o consultor tem os pés mais ou menos assentes na terra, pois conclui: «Dito isto, concordará certamente comigo a prezada consulente se eu lhe disser que não estamos assim tão mal no que a este aspeto particular da língua diz respeito.» Mais ou menos, sim, porque também escreveu isto: «No entanto, e centrando-nos especificamente no português, pondo de lado os tratamentos cerimoniosos (ex.: “Vossa Excelência”), os títulos profissionais (ex.: “o senhor doutor”) e os cargos (ex.: “o senhor ministro”), que podem naturalmente ser usados na segunda pessoa (ex.: “o senhor doutor pode receber-me amanhã?”), direi que, ainda assim, nos restam, dependendo do contexto conversacional, e até, por exemplo, do estado civil da pessoa, “o senhor”, “a senhora” (“a senhorita”, no Brasil), “a menina”, “o menino”, ou, porque não?, “a madame” (em contextos de propositada caricatura social, por exemplo).» «A madame» é que nos divertiu muito. Por essa via, são mais as omissões. Porque não, lembro-me agora, «sua besta», por exemplo?

 

[Texto 1019] 

Helder Guégués às 08:21 | favorito
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