Linguagem

A polissemia não mata

 

 

      «O Estado, consciente das suas responsabilidades, deseja que o eleitorado se sente numa cadeira (com a televisão fechada) a pensar e a consultar documentos para decidir com a maior concentração e rigor em quem vai votar» («“Reflexão”», Vasco Pulido Valente, Público, 4.06.2011, p. 40).

      É muito mais habitual usar-se, neste contexto, «apagar» ou «desligar». (E «televisão fechada» é o equivalente, no Brasil, à nossa televisão por cabo.) Este texto, contudo, serve mais de pretexto para reflectir. Assim, é sintomático da vitalidade da língua não ter tido necessidade de adoptar um neologismo para designar a acção de desligar um aparelho. No contexto, nenhum leitor pensará que se trata de suprimir ou destruir ou eliminar um televisor. É sempre um caminho possível, este de acrescentar acepções aos termos já em uso. A polissemia não mata. Pode moer, arreliar, confundir, mas não mata. O problema é que não é um caminho deliberado: acontece.

 

[Texto 106]

Helder Guégués às 20:18 | favorito
Etiquetas: