Língua e racismo

Estáquio vs. D’Elboux

 

 

      «O Dantas é um cigano! O Dantas é meio cigano! O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!» Se fosse hoje e estivesse no Brasil, Almada Negreiros arriscava-se a levar com um processo em cima. «O Ministério Público Federal (MPF)», lê-se no Estadão, «entrou com ação na Justiça Federal em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, para tirar de circulação o Dicionário Houaiss, um dos mais conceituados. A publicação conteria, em uma das acepções da palavra cigano, expressões “pejorativas e preconceituosas” e praticaria racismo. A Justiça não se manifestou.» Ao menos isso. «Para o procurador Cléber Eustáquio Neves, o texto afronta a Constituição e pode ser considerado racismo. “Ao se ler em um dicionário que cigano significa aquele que trapaceia, ainda que se deixe expresso que é pejorativo, fica claro o caráter discriminatório da publicação.” A advogada Sonia Maria D’Elboux, especialista em direitos autorais, discorda da ação. “A Justiça não pode apagar a História. É natural que um grande dicionário registre esse significado.”»

 

[Texto 1153]

Helder Guégués às 21:07 | favorito
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